29 março 2010

A violência da ignorância

Quaisquer que sejam as suas causas, as duas mortes recentes de um aluno e de um professor estão relacionadas com a violência nas escolas. Multiforme, ela nasce e desenvolve-se invariavelmente entre os alunos, contra eles próprios ou contra os professores. Raramente destes contra aqueles.
Estas mortes não são casos «excepcionais» (a não ser pelo carácter trágico do acontecimento), mas inserem -se num contexto geral de indisciplina, desrespeito e violação geral das regras que devem assegurar uma aula normal e mesmo das regras tácitas de conduta de um ser em sociedade. Estou certo que a grande maioria dos portugueses ignora o que se passa nessas aulas - onde o clima «bárbaro» não permite às vezes a mínima aprendizagem.
Não estou a dramatizar. Esta situação verdadeiramente patogénica — que provoca as mais variadas doenças psíquicas e somáticas nos docentes, depressões, stress, síndromas de pânico, traumas, sentimentos de repulsa e desistência perante a perspectiva de continuar a viver «esta vida e esta profissão» (no dizer de tantos professores) — levou milhares deles a aposentar-se antecipadamente, mesmo sofrendo graves penalizações materiais.
Para este clima contribui, certamente, um sem-número de factores — desde a «demissão dos pais» à própria violência que atrai os adolescentes, etc. Mas vem também da progressiva desagregação da autoridade dos professores e de uma política laxista e ignorante do que é ensinar e educar, feita mais para reduzir as despesas do Estado e facilitar a vida aos pais do que para formar e transmitir conhecimento aos filhos. Uma política que tanto deseja uma «sociedade do conhecimento» e que pouco ou nada faz para impedir a desdignificação ou «dessacralização» do conhecimento. A violência que circula livremente nas escolas deriva também da ignorância dos alunos e da negligência (ignorância) dos responsáveis.
COMO MODIFICAR ESTA SITUAÇÃO? Antes de mais, é preciso que se diga a verdade sobre a realidade concreta, quotidiana da vida escolar. Dizer a verdade sobre uma situação desastrosa. Para tanto, é preciso vencer o que se tornou quase um hábito, um modo geral de fazer política que é dar-nos uma imagem sempre positiva, sem falhas, boa e tendencialmente perfeita do nosso país em todos os domínios. E porque não se diz a verdade? Se é exacto que o discurso político, por natureza, não é um discurso de verdade, esta pode e deve ser dita esporadicamente, em momentos de crise, por exemplo, e sobre matérias limitadas. Se o fizesse, o Governo ganharia credibilidade e receberia uma adesão maior.
Não o faz porque tem medo que o mal confessado contamine a imagem inteira da sua governação e a exponha a uma condenação global — o que é certamente um fantasma permanente. Mas, não o fazendo, comporta-se exactamente como os que o criticam sempre (com o discurso do «bota abaixo»), tão criticados, por sua vez, pelo próprio Governo. São afinal dois discursos complementares — ambos rígidos, dogmáticos, dizendo sempre o bem indefectível ou o mal radical em que vivemos. Mantendo-se os dois, porém, no plano da não-verdade da retórica política que não restitui fielmente a nossa realidade, respondem, afinal, ao que o povo (e parte) também quer ouvir.
QUE SE COMECE POR DIZER a verdade sobre a situação que se vive nas nossas escolas — e um novo ânimo acordará, talvez, ainda forças nos mais desesperados. Mudar o espírito da educação, restituir a autoridade dos docentes, dar-lhes condições (materiais e imateriais) para ensinar, valorizar o conhecimento com uma cultura exigência, recusando a falsa democracia do facilitismo — tudo isto, que não existe pode contribuir para transformar o clima de violência que se desenvolve actualmente nas nossas escolas.

ENSAIO, José Gil
VISÃO 18 DE MARÇO DE 2010

23 março 2010

6...

Porquê 6, como titulo deste post?
Porque me apeteceu, entre milhares de títulos que poderia escolher…
Porque, hoje, dia 23 de Março de 2010, este blog,



completa 6 anos de vida.

Uma vida a partilhar ideias, desabafos, poesia, entre outras coisas e dá-me imenso prazer esta partilha.
Por muito tempo? Não sei, não me interessa…o passado conta com 6 anos na blogosfera…o presente…1 bolinho com 6 velas…o futuro? Uma grande incógnita, que acontecerá ao sabor dos ventos que sopram do coração.



São servidos de 1 fatia de bolo? Feito, especialmente, para esta ocasião.Vá lá, não façam cerimónia e comemorem aqui connosco…a Festa promete…

E, já agora…OUSEM SER FELIZES!!!!

11 março 2010

"Um dia, num mundo..."

"Um dia, num mundo mais amigo das crianças, todas as escolas serão jardins de infância!"


Para Pais (com filhos no Jardim de Infância) e Educadores

1. "Proibido insultar o jardim de infância chamando-lhe "escolinha". Em primeiro lugar, porque é uma escola. Em segundo, porque todas as escolas ganhavam se ligassem Brincar com Aprender.

2. É proibido que os pais imaginem que o jardim de infância serve para aprender a ler e contar. Ele é útil para aprender a descobrir os sentimentos. Para aprender a imaginar e a fantasiar. Para aprender com o corpo, com a música e com a pintura. E para brincar. Uma criança que não brinque deve preocupar mais os pais do que se ela fizer uma ou outra birra, pela manhã ao chegar.

3. O jardim de infância assusta as crianças sempre que os pais - como quem sossega nelas os medos deles por mais um dia de jardim de infância - lhes repetem: " Hoje vai correr tudo bem!"

4. Os pais estão proibidos de despedir-se muitas vezes das crianças, ao chegarem todos os dias. E é bom que se decidam: ou ficam contentes por elas correrem para os amigos ou ficam contentes por elas se agarrarem ao pescoço deles, com se estivessem prestes a ser abandonadas para sempre.

5. É proibido que as crianças vão dia-sim dia-não ao jardim de infância. E que vão, simplesmente, quando os seus caprichos infantis vão de férias. E que não vão " só porque sim". O jardim de infância não é um trabalho para os mais pequenos. É uma bela oportunidade para os pais não se esquecerem que se pode amar o conhecimento, namorar com a vida, nunca ser feliz sozinho e brincar, ao mesmo tempo.

6. No jardim de infância não é obrigatório comer até à última colher; nem dormir todos os dias. E não é nada mau que uma criança se baralhe e chame pai/mãe ao educador/a (ou vice-versa).

7. Os pais estão obrigados a estar a horas quando se trata duma criança regressar a casa. Prometer e faltar devia dar direito a que os pais fossem sujeitos classificados como tendo necessidades educativas especiais.

8. Os pais não podem exigir aos filhos relatórios de cada dia de jardim de infância. Mas estão autorizados a ficar preocupados se as crianças forem ficando mais resmungonas, mais tristonhas ou, até, mais aflitas, sempre que regressam de lá. E estão, ainda, autorizados a proibir que o jardim de infância só se abra para eles durante as festas.

9. O jardim de infância é uma escola de pais. E um lugar onde os educadores são educados pelas crianças. Um lugar onde todos se educam uns aos outros não é uma escola como as outras. É um jardim de infância.

10. Um dia, num mundo mais amigo das crianças, todas as escolas serão jardins de infância!"

Por Eduardo Sá (Psicólogo)

05 março 2010

Poeta Castrado, Não!

Serei tudo o que disserem
por inveja ou negação:
cabeçudo dromedário
fogueira de exibição
teorema corolário
poema de mão em mão
lãzudo publicitário
malabarista cabrão.
Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado não!

Os que entendem como eu
as linhas com que me escrevo
reconhecem o que é meu
em tudo quanto lhes devo:
ternura como já disse
sempre que faço um poema;
saudade que se partisse
me alagaria de pena;
e também uma alegria
uma coragem serena
em renegar a poesia
quando ela nos envenena.

Os que entendem como eu
a força que tem um verso
reconhecem o que é seu
quando lhes mostro o reverso:

Da fome já não se fala
é tão vulgar que nos cansa
mas que dizer de uma bala
num esqueleto de criança?

Do frio não reza a história
a morte é branda e letal
mas que dizer da memória
de uma bomba de napalm?

E o resto que pode ser
o poema dia a dia?
Um bisturi a crescer
nas coxas de uma judia;
um filho que vai nascer
parido por asfixia?!
Ah não me venham dizer
que é fonética a poesia!

Serei tudo o que disserem
por temor ou negação:
Demagogo mau profeta
falso médico ladrão
prostituta proxeneta
espoleta televisão.
Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado não!

José Carlos Ary dos Santos
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