31 maio 2004

Segunda-feira



O despertador toca…são horas de levantar, é segunda-feira, uma nova semana, novo ciclo, ou velho, porque se repetem rotinas, gestos cansados.
Um duche à pressa, o pequeno-almoço por tomar, não há tempo, estamos atrasados, mas atrasados para quê e porquê?
Na pressa de chegar a lado algum, esquecemo-nos de sorrir, de dar os bons dias e nem vimos o vizinho que desceu connosco no elevador e que o faz repetidamente todos os dias ao longo dos anos.
Estamos cegos com o ritmo alucinado da vida, com o transporte que temos que apanhar, com as metas que o chefe impôs, com a competição desleal dos colegas de trabalho, com o carro novo do vizinho, e sei lá o que mais.
Apenas cegos, porque queremos ter, ter mais, que o outro, mais que o amigo, mais que o familiar, temos que vencer a todo o custo.
Na pressa esquecemos de amar, esquecemos o/a companheiro/a, esquecemos os filhos e mais grave que isso tudo esquecemo-nos de nós mesmos.
Se parássemos um pouco…apenas uns breves segundos…veríamos que o “ser”, sim o “ser” é o mais importante da vida. Ser leal, ser amigo, ser companheiro, apenas ser, cultivar os verdadeiros tesouros da vida, o amor, a paz, a serenidade.
Saber sorrir, saber partilhar…
Sonhadora? Talvez…utópica? Não, não é utopia saber “ser”, afinal na pressa da vida endividamo-nos material e espiritualmente.
Mais uma segunda feira…mais uma semana, repetitiva, cansativa, desgastante para a alma sedenta do “ser”, mas inundada do “ter”.
O que fazer? A vida é complicada e competitiva, solicita-nos para termos cada vez mais…
Cada um, no seu recanto íntimo da alma, com certeza encontrará o seu caminho, encontrará respostas para estas questões e saberá parar uns breves segundos para reflectir.
Eu busco o meu caminho do “ser”, eu procuro as minhas respostas, no mais fundo do meu baú…cabe a cada um encontrar as suas respostas.
Então porque escrevo se não dou soluções? Não é esse o meu intuito, mas sim reflectir em voz alta, partilhar minhas reflexões e alertar…o resto…cada um terá que fazer a sua parte.


Angelis

30 maio 2004

Reflexão




Sentada em frente ao computador, olho pela janela, o sol brilha lá fora, o vento agita as folhas das árvores.
Ao longe ouço o ladrar de alguns cães, e o sossego de uma tarde de domingo invade o meu espaço interior.
O meu pensamento vagueia…deixo-o libertar-se e tentar compreender a vida, as alegrias, as motivações do ser humano.
Nesta tranquilidade penso nos outros…quantos sentirão a verdadeira dimensão de viver? Quantos conseguirão sentir o verdadeiro amor e partilha? Quantos serão capazes de se entregar à amizade, de cultivar a paz e harmonia?
Esta vida é uma passagem, uma viagem que encetamos no dia em que nascemos e que terminará na estação da morte. Podemos tornar essa viagem alegre ou triste, mediante o que levarmos na bagagem da alma.
Que queremos transportar? Que pretendemos arrastar pela vida? Vale a pena cultivar ódios? Vale a pena semear tempestades?
Neste momento meu sossego foi invadido pelas crianças do meu vizinho, que aproveitando a tarde e o sol, vieram para o terraço jogar à bola.
Inocentes ainda, viajantes incautos, mas já invadidos pelas solicitações da vida…pelos computadores, pelas marcas de roupa, pelas notas excelentes nos estudos, por tudo e por nada, menos pela alegria de ser criança, de poderem brincar…
À sua volta saltita um cachorro, fascinado pela bola e pela brincadeira. Deixo-me contagiar pelos seus sorrisos e brincadeiras…
Afinal eu também trabalho com crianças…e vejo em seus rostos as marcas da vida, leio em seus olhos a alegria ou a tristeza e quantas vezes umas lágrimas disfarçadas porque um “homem” não pode chorar.
Para onde levamos estas crianças? Que valores lhes transmitimos? Que vivências lhes proporcionamos? Até onde vai a fronteira da responsabilidade de pais e educadores? Da família e da escola?
Reflexões demasiado “pesadas” para uma tarde amena de domingo, mas é urgente parar, reflectir, analisar e mudar.
Para todos um bom domingo e que minhas reflexões não lhes causa nenhuma indigestão…

Angelis

Recomeçar



Não importa aonde você parou... em que momento da vida você cansou... o que importa é que sempre é possível e necessário “Recomeçar”.

Recomeçar é dar uma nova chance a si mesmo... é renovar as esperanças na vida e o mais importante... acreditar em você de novo.

Sofreu muito nesse período ?
Foi aprendizado...

Chorou muito ?
Foi limpeza da alma...

Ficou com raiva das pessoas ?
Foi para perdoá-las um dia...

Sentiu-se só por diversas vezes ?
É porque fechaste a porta para os anjos...

Acreditou que tudo estava perdido ?
Era o início de tua melhora...

Pois é... Agora é hora de reiniciar... de pensar na luz... de encontrar prazer nas coisas simples de novo.

Que tal um novo emprego ?

Uma nova profissão ?

Um corte de cabelo arrojado... diferente... ?

Um novo curso...?
Ou aquele velho desejo de aprender a pintar... desenhar... dominar o computador... ou qualquer outra coisa...

Olha quanto desafio... quanta coisa nova nesse mundão de Deus te esperando.

Tá-se sentindo sozinho ?
Besteira... tem tanta gente que você afastou nesse seu período de isolamento... tem tanta gente esperando apenas um sorriso teu para chegar pertinho de você.

Quando nos trancamos na tristeza... nem nós mesmos nos suportamos... ficamos horríveis... o mal humor vai comendo nosso fígado... até a boca fica amarga.

Recomeçar... hoje é um bom dia para começar novos desafios.

Onde você quer chegar ?

Ir alto... ?
Então sonhe alto... queira o melhor do melhor... queira coisas boas para a vida... pensando assim trazemos pra nós aquilo que desejamos... se pensamos pequeno... coisas pequenas teremos... já se desejarmos fortemente o melhor e principalmente lutarmos pelo melhor... o melhor vai se instalar na nossa vida.

E é hoje o dia da faxina mental...
Vamos lá... joga fora tudo que te prende ao passado... ao mundinho de coisas tristes... fotos... peças de roupa... papel de bala... ingressos de cinema, bilhetes e viagens... e toda aquela tranqueira que guardamos quando nos julgamos apaixonados... jogue tudo fora... mas principalmente... esvazie seu coração... fique pronto para a vida... para um novo amor...

Lembre-se somos apaixonáveis... somos sempre capazes de amar muitas e muitas vezes... afinal de contas...

Nós somos o “Amor”...

Porque somos do tamanho daquilo que vemos, e não do tamanho da nossa altura.

(Carlos Drumond de Andrade)

23 maio 2004

A bagagem

Existe um personagem de desenhos animados infantis que tem um certo toque de mistério e magia. Seu nome é Gato Félix. A todo lugar que vá, ele leva a sua maleta. É uma maleta especial, pequena. E tudo o que ele deseja, tira da dita maleta. Se for hora do lanche, ele encontra frutas, sanduíches e sucos. Se necessitar fazer um conserto, as ferramentas lá estão. Sempre as certas e precisas. Se chover de repente, basta abrir a maleta para encontrar capa, guarda-chuva, botas. E assim em qualquer situação. Cada um de nós também possui uma pequena mala de mão, em nossa vida, mais ou menos parecida com a do personagem infantil. Quando a vida começa, temos em mãos a pequena mala. À medida que os anos passam, a bagagem, dentro dela, vai aumentando. É que vamos colocando tudo o que recolhemos pelo caminho. Algumas coisas muito importantes. Outras, nem tanto. Muitas, dispensáveis. Chega um momento em que a bagagem começa a ficar insuportável de ser carregada. Pesa demais. Nesse momento, o melhor mesmo é aliviar o peso, esvaziar a mala. Você examina o conteúdo e vai pondo para fora. Amor, amizade. Curioso, não pesam nada. Depois você tira a raiva. Como ela pesa! Na sequência, você tira a incompreensão, o medo, o pessimismo. Nesse momento, você encontra o desânimo. Ele é tão grande que, ao tentar tirá-lo, ele é que quase o puxa para dentro da mala. Por fim, você encontra um sorriso. Bem lá no fundo, quase sufocado. Pula para fora outro sorriso. E mais outro. Aí você encontra a felicidade. Mas ainda tem mais coisas dentro da mala. Você remexe e encontra a tristeza. É bom jogá-la fora. Depois, você procura a paciência dentro da mala. Vai precisar bastante dela. E também procura a força, a esperança, a coragem, o entusiasmo, o equilíbrio, a responsabilidade, a tolerância e o bom e velho humor. A preocupação que você encontrar, deixe de lado. Depois você pensa no que fazer com ela. Bem, agora que você tirou tudo da sua mala, deve arrumar toda a bagagem. Pense bem no que vai colocar lá dentro de novo. Isso é com você. E depois de toda a bagagem pronta, o caminho recomeçado, lembre de repetir a arrumação vez ou outra. O caminho é longo até chegar ao final da jornada, e você terá que carregar a mala o tempo todo. E quando chegar do outro lado, é bom que em sua bagagem tenha o máximo de coisas positivas, como boas obras, amizades, carinho, amor. Porque isso tudo não pesa na sua bagagem, enquanto na terra. Mas quando for colocada na balança da justiça, para além da existência física, pesará e muito, positivamente. A vida é uma grande viagem. Durante um tempo excursiona-se pelas paisagens terrenas. É um período para estudar, trabalhar, progredir. Um dia, retorna-se para a estação espiritual. É o momento de contar as conquistas e as perdas. Os erros e os acertos. Que a nossa bagagem, nesse dia, possa estar repleta de virtudes, o bem praticado, afectos conquistados para nossa própria e grande felicidade.

(Desconheço o autor)

12 maio 2004

O que aprendemos com o tempo

"Depois de algum tempo aprendes a diferença, a subtil diferença entre dar a mão e acorrentar uma alma. E aprendes que amar não significa apoiar-se, e que companhia nem sempre significa segurança. E começas a aprender que beijos não são contratos e presentes não são promessas. Acabas por aceitar as derrotas com a cabeça erguida e olhos adiante, com a graça de um adulto e não com a tristeza de uma criança. E aprendes a construir todas as tuas estradas de hoje, porque o terreno do amanhã é incerto demais para os planos, e o futuro tem o costume de cair em meio ao vão.

Depois de algum tempo aprendes que o sol queima se te expuseres a ele por muito tempo. Aprendes que não importa o quanto tu te importas, simplesmente porque algumas pessoas não se importam... E aceitas que apesar da bondade que reside numa pessoa, ela poderá ferir-te de vez em quando e precisas perdoá-la por isso. Aprendes que falar pode aliviar dores emocionais. Descobres que se leva anos para se construir a confiança e apenas segundos para destruí-la, e que poderás fazer coisas das quais te arrependerás para o resto da vida.

Aprendes que verdadeiras amizades continuam a crescer mesmo a longas distâncias. E o que importa não é o que tens na vida, mas quem tens na vida. E que bons amigos são a família que nos permitiram escolher. Aprendes que não temos que mudar de amigos se compreendemos que os amigos mudam, percebes que o teu melhor amigo e tu podem fazer qualquer coisa, ou nada, e terem bons momentos juntos. Descobres que as pessoas com quem tu mais te importas são tiradas da tua vida muito depressa, por isso devemos sempre despedir-nos das pessoas que amamos com palavras amorosas, pode ser a última vez que as vejamos. Aprendes que as circunstâncias e os ambientes têm influência sobre nós, mas nós somos responsáveis por nós mesmos.

Começas a aprender que não te deves comparar com os outros, mas com o melhor que podes ser. Descobres que se leva muito tempo para se tornar a pessoa que se quer ser, e que o tempo é curto. Aprendes que, ou controlas
os teus actos ou eles te controlarão e que ser flexível nem sempre significa ser fraco ou não ter personalidade, pois não importa quão delicada e frágil seja uma situação, existem sempre os dois lados.

Aprendes que heróis são pessoas que fizeram o que era necessário fazer enfrentando as consequências. Aprendes que paciência requer muita prática. Descobres que algumas vezes a pessoa que esperas que te empurre, quando cais, é uma das poucas que te ajuda a levantar. Aprendes que maturidade tem mais a ver com os tipos de experiência que tiveste e o que aprendeste com elas do que com quantos aniversários já comemoraste. Aprendes que há mais dos teus pais em ti do que supunhas.

Aprendes que nunca se deve dizer a uma criança que sonhos são disparates, poucas coisas são tão humilhantes e seria uma tragédia se ela acreditasse nisso.

Aprendes que quando estás com raiva tens o direito de estar com raiva, mas isso não te dá o direito de ser cruel. Descobres que só porque alguém não te ama da forma que desejas, não significa que esse alguém não te ama com tudo o que pode, pois existem pessoas que nos amam, mas simplesmente não sabem como demonstrar ou viver isso.

Aprendes que nem sempre é suficiente ser perdoado por alguém, algumas vezes tens que aprender a perdoar-te a ti mesmo. Aprendes que com a mesma severidade com que julgas, poderás ser em algum momento condenado.

Aprendes que não importa em quantos pedaços o teu coração foi partido, o mundo não pára para que tu o consertes. Aprendes que o tempo não é algo que possa voltar para trás.

Portanto, planta o teu jardim e decora a tua alma, ao invés de esperares que alguém te traga flores. E aprendes que realmente podes suportar mais... que és realmente forte, e que podes ir muito mais longe depois de pensar que não se pode mais. E que realmente a vida tem valor e que tu tens valor diante da vida! As nossas dádivas são traidoras e fazem-nos perder o bem que poderíamos conquistar, se não fosse o medo de tentar."

William Shakespeare

Permanecendo abertos ao amor

Paulo Coelho

Existem momentos em que gostaríamos muito de ajudar a quem amamos muito, mas não podemos fazer nada. Ou as circunstâncias não permitem que nos aproximemos, ou a pessoa está fechada para qualquer gesto de solidariedade e apoio.
Então, nos resta apenas o amor. Nos momentos em que tudo é inútil, ainda podemos amar - sem esperar recompensas, mudanças, agradecimentos.
Se conseguimos agir desta maneira, a energia do amor começa a transformar o universo a nossa volta. Quando esta energia aparece, sempre consegue realizar o seu trabalho.
"O tempo não transforma o homem. O poder da vontade não transforma o homem. O amor transforma", diz Henry Drummond.
Li no jornal sobre uma criança, em Brasília, que foi brutalmente espancada pelos pais. Como resultado, perdeu os movimentos do corpo e ficou sem fala.
Internada no Hospital de Base, ela foi cuidada por uma enfermeira que lhe dizia diariamente: "eu te amo". Embora os médicos garantissem que não conseguia escutá-la, e que seus esforços eram inúteis, a enfermeira continuava a repetir: "Eu te amo, não esqueça".
Três semanas depois, a criança havia recuperado os movimentos. Quatro semanas depois, voltava a falar e sorrir. A enfermeira nunca deu entrevistas, e o jornal não publicava seu nome - mas fica aqui o registro, para que não esqueçamos nunca: o amor cura.
O amor transforma, o amor cura. Mas às vezes, o amor constrói armadilhas mortais, e termina destruindo a pessoa que resolveu entregar-se por completo. Que sentimento complexo é este que - no fundo - é a única razão para continuarmos vivos, lutando, procurando melhorar?
Seria uma irresponsabilidade tentar defini-lo, porque, como todo o resto dos seres humanos, eu apenas consigo senti-lo. Milhares de livros são escritos, peças teatrais encenadas, filmes produzidos, poesias criadas, esculturas talhadas na madeira ou no mármore, e mesmo assim, tudo que o artista pode passar é a idéia de um sentimento - não o sentimento em si.
Mas eu aprendi que este sentimento está presente nas pequenas coisas, e se manifesta na mais insignificante das atitudes que tomamos, portanto é preciso ter o amor sempre em mente, quando agimos ou quando deixamos de agir.
Pegar o telefone e dizer a palavra de carinho que adiamos. Abrir a porta e deixar entrar quem precisa de nossa ajuda. Aceitar um emprego. Abandonar um emprego. Tomar a decisão que estávamos deixando para depois. Pedir perdão por um erro que cometemos e que não nos deixa em paz. Exigir um direito que temos. Abrir uma conta no florista, que é mais importante que o joalheiro. Colocar a música bem alta quando a pessoa amada estiver longe, abaixar o volume quando ela estiver perto. Saber dizer "sim" e "não", porque o amor lida com todas as energias do homem. Descobrir um esporte que possa ser praticado a dois. Não seguir nenhuma receita, nem mesmo as que estão neste parágrafo - porque o amor precisa de criatividade.
E quando nada disso for possível, quando o que resta é apenas a solidão, então lembrar-se de uma história que um leitor me enviou certa vez:
Uma rosa sonhava dia a noite com a companhia das abelhas, mas nenhuma vinha pousar em suas pétalas.
A flor, entretanto, continuava a sonhar: durante suas longas noites, imaginava um céu onde voavam muitas abelhas, que vinham carinhosamente beijá-la.Desta maneira, conseguia resistir até o próximo dia, quando tornava a se abrir com a luz do sol.
Certa noite, conhecendo a solidão da rosa, a lua perguntou:
- Você não está cansada de esperar?
- Talvez. Mas preciso continuar lutando.
- Por que?
- Porque, se eu não me abrir, eu murcho.
Nos momentos onde a solidão parece esmagar toda a beleza, a única maneira de resistir é continuarmos abertos.

09 maio 2004

O tamanho das pessoas

Os Tamanhos variam conforme o grau de envolvimento...

Uma pessoa é enorme para ti, quando fala do que leu e viveu, quando te trata com carinho e respeito, quando te olha nos olhos e sorri .

É pequena para ti quando só pensa em si mesma, quando se comporta de uma maneira pouco gentil, quando fracassa justamente no momento em que teria que demonstrar o que há de mais importante entre duas pessoas: a amizade, o carinho, o respeito, o zelo e até mesmo o amor

Uma pessoa é gigante para ti quando se interessa pela tua vida, quando procura alternativas para o seu crescimento, quando sonha junto contigo. E pequena quando se desvia do assunto.

Uma pessoa é grande quando perdoa, quando compreende, quando se coloca no lugar do outro, quando age não de acordo com o que esperam dela, mas de acordo com o que espera de si mesma.

Uma pessoa é pequena quando se deixa reger por comportamentos da moda.

Uma mesma pessoa pode aparentar grandeza ou miudeza dentro de um relacionamento, pode crescer ou decrescer num espaço de poucas semanas.

Uma decepção pode diminuir o tamanho de um amor que parecia ser grande.
Uma ausência pode aumentar o tamanho de um amor que parecia ser ínfimo.

É difícil conviver com esta elasticidade: as pessoas se agigantam e se encolhem aos nossos olhos. O nosso julgamento é feito não através de centímetros e metros, mas de acções e reacções, de expectativas e frustrações.

Uma pessoa é única ao estender a mão, e ao recolhê-la inesperadamente torna-se mais uma.
O egoísmo unifica os insignificantes.
Não é a altura, nem o peso, nem os músculos que tornam uma pessoa grande... é a sua sensibilidade, sem tamanho...


William Shakespeare

08 maio 2004

Vale a pena reflectir...

O autor é o João Pereira Coutinho, não o milionário mas sim o jornalista:

NÃO TENHO FILHOS e tremo só de pensar. Os exemplos que vejo em volta não aconselham temeridades.

Hordas de amigos constituem as respectivas proles e, apesar da benesse, não levam vidas descansadas. Pelo contrário: estão invariavelmente mergulhados numa angústia e numa ansiedade de contornos particularmente patológicos.

Percebo porquê. Há cem ou duzentos anos, a vida dependia do berço, da posição social e da fortuna familiar.

Hoje, não. A criança nasce não numa família mas numa pista de atletismo com as barreiras da praxe: jardim-escola aos três, natação aos quatro, lições de piano aos cinco, escola aos seis. E um exército de professores, explicadores, educadores e psicólogos, como se a criança fosse um potro de competição.

Eis a ideologia criminosa que se instalou definitivamente nas sociedades modernas: a vida não é para ser vivida - mas construída com sucessos pessoais e profissionais, uns atrás dos outros, em progressão geométrica para o infinito.

É preciso o emprego de sonho, a casa de sonho, o maridinho de sonho, os amigos de sonho, as férias de sonho, os restaurantes de sonho, as quecas de sonho.

Não admira que, até 2020, um terço da população mundial estará a mamar forte no Prozac.

É a velha história da cenoura e do burro: quanto mais temos, mais queremos. Quanto mais queremos, mais desesperamos.

A meritocracia gera uma insatisfação insaciável que acabará por arrasar o mais leve traço de humanidade. O que não deixa de ser uma lástima.

Se as pessoas voltassem a ler os clássicos, sobretudo Montaigne, saberiam que o fim último da vida não é a excelência.

Mas a felicidade.

Poesia

Versos ? Paguei-os. Alegria e raiva.
As palavras por vezes impotentes
outras vezes escorrendo sangue e seiva
ao morderem a vida com os dentes.

Poesia que és uns dias minha noiva
com seios de palavras complacentes.
Poesia que outras vezes grita e uiva
fêmea capaz de fecundar sementes.

Poesia minha amiga minha irmã
mulher da vida que inventei
para fazermos filhos amanã.

Poesia minha força e meu castigo
meu incesto tão puro que nem sei
se é verdade que faço amor contigo.

ARY DOS SANTOS

Soneto do amor total

(Vinícius de Moraes)

Amo-te tanto, meu amor...não cante
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.
Amo-te afim, de um calmo amor prestante
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.
Amo-te como um bicho, simplesmente
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.
E de te amar assim, muito e amiúde
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.
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