30 agosto 2004

Memórias da minha infância


Ao tratar das tarefas domésticas (e confesso que não gosto muito), dei de caras com esta foto (aliás tenho esta foto num porta retratos na minha sala).
Lembranças vieram à mente, lembranças de tempos distantes. Não me recordo de ter tirado esta foto (só tinha 2 anos), fui ver por trás, meu pai tinha a mania de pôr a data e o local onde a foto foi tirada, e reparei que é de Agosto de 1962 (pois é…estou velhota…hehehe…é só fazer as contas e têm a minha idade) e foi tirada na Nª Srª dos Remédios em Lamego, no casamento da minha tia Maria Lucília e aqui a menina foi levar as alianças dos noivos.
Sempre tive um certo encantamento por esta foto, e ela levou-me a outras recordações, as tardes passadas em casa da minha avó materna, o chá de erva cidreira, que ela tinha sempre numa garrafa termos e que eu adorava. Nunca tomei chá tão saboroso e só de me lembrar quase que senti o cheiro, o sabor. As tardes passadas na brincadeira com o meu primo João (filho da tia a quem eu levei as alianças de casamento e originaram esta foto), aliás ambos gostávamos que a tia Mimi nos desse uns bocadinhos de pano, agulha e linhas (tesoura só com a supervisão dela, para não nos cortarmos) para confeccionarmos as roupas para as bonecas.
Minha tia era costureira e tinha sempre uma ajudante com ela, que para além de a ajudar, às vezes brincava mais connosco que ajudava e sempre com a minha avó por perto, sentada numa poltrona, rindo das traquinices dos seus netos.
Meu primo João hoje (tem 41 anos) é economista na banca, está casado e tem 2 filhos, e eu sou educadora de infância…
Porque estas lembranças todas? Talvez por estar prestes a retomar o trabalho, por mais um ano lectivo estar à porta, preparar o jardim-de-infância para receber as crianças, e tudo isso me lembrou a minha infância feliz, comparando com a infância atribulada das crianças de agora.
Lembranças felizes foi o que originou esta foto, cheiros, sabores, brincadeiras de outrora. Tenho pena que tanto a minha avó como a minha tia Mimi já não se encontrem entre nós…adorava a companhia delas e então a minha avó, sempre que ia a casa dela tinha sempre uma palavra de alento, um conselho, um sorriso e aquele chá de erva cidreira que eu tanto gostava.
Para elas, porque me proporcionaram uma infância feliz e lembranças doces um grande xi coração e obrigada por terem estado presentes na minha vida.

angelis

26 agosto 2004

Relacionamentos? - Amar sem ser amado(a)



Sabe quando a gente olha em volta e não vê ninguém?
Quando percebemos, que por algum motivo, ficamos completamente sós?
Quando, apesar de procurarmos, não somos capazes de encontrar ninguém com quem desejemos estar?

Talvez seja esse o momento certo para reflectirmos sobre relacionamentos.

Só, o ser humano valoriza muito mais o que significa estar acompanhado.
Em total solidão, somos capazes de compreender que exageramos na dose de intolerância com que temos brindado amigos e companheiros.

Revisitando antigas relações, nos damos conta de que as estranhas manias e os hábitos aparentemente insuportáveis de nossos ex – maridos, amantes ou namorados, não eram assim tão graves, e até poderiam ter sido suportados se tivéssemos de volta, pelo menos, algumas das inúmeras coisas boas que compartilhamos com eles.

O facto é que esse inventário minucioso das relações, a que nos obriga a insónia, com os pés gelados, na cama de casal imensa, que a solidão muitas vezes transforma em instrumento de tortura, pode nos conduzir a algumas conclusões bastante úteis, se ainda tivermos forças para buscar e concretizar, a partir delas, novos relacionamentos.

A primeira coisa que descobrimos, é que viver e deixar viver é muito mais do que uma frase de efeito. É uma realidade que evita muita confusão.

Respeito é bom e eu gosto, passa ser uma espécie de lema, que a postura corporal denuncia, antes mesmo que lampeje em nossos olhos, para que nossa boca nunca mais tenha que pronunciar.

Outra coisa que aprendemos lentamente, mas para sempre, é que não vale a pena usar feitiços e artimanhas para conquistar nada nem ninguém.

Se alguém vier a gostar de alguma coisa em nós terá que ser de nossa cara lavada de todo dia, e não da face de boneca glamurosa que exibimos uma vez na vida, em festas e recepções.

Ninguém é perfeito, muito menos nós, e, até por causa disso, todo chilique é desculpável, e deve ser acolhido, na pior das hipóteses, com silêncio, e na melhor, com risadas, se elas não piorarem as coisas, é claro.

Gosto não se discute, e por mais estranho que pareça, pode ser compartilhado em ocasiões especiais.

A mais difícil conclusão a que chegamos, sobre relacionamentos, é que eles exigem de nós um reconhecimento profundo das necessidades e limites de cada um e do todo.

Manter e sustentar um relacionamento é aceitar, sem qualquer tipo de sentimento de rejeição, sem cobrança, sem mágoa, sem cara feia, sem negação, sem manipulação, sem vingança, sem perversão, a qualidade e a quantidade de afecto que o outro está disposto a oferecer, nem mais, nem menos, como e quando ele quiser expressá-lo.

Esta forma de relacionar-se é a única que nos permite estabelecer relações construtivas com toda e qualquer pessoa, mesmo as que não simpatizam connosco ou as que – declaradamente, ou em segredo – não gostam de nós.

Relacionar-se segundo essas premissas torna possível compreender que, apesar de nossos sentimentos não serem correspondidos na mesma medida, estas diferenças de frequência e de intensidade não inviabilizam nenhum relacionamento.

Se prezamos nossa liberdade e a legitimidade de nossos sentimentos, porque não respeitamos na mesma medida as de nossos semelhantes?

Considerando as relações sob este prisma, e aplicando esses conceitos na prática, veremos que é possível assumir nossos sentimentos, e, ao mesmo tempo respeitar os sentimentos do outro, sem atritos nem constrangimentos.

É por causa disso que sempre afirmo, para quem quiser ouvir, desmentindo toda a retórica romântica, que é possível se sentir livre e feliz, amando sem ser amado, conviver em paz e serenidade, com alguém por quem estamos apaixonados, mesmo sabendo que não somos correspondidos.

Manter uma relação saudável e honesta é estar aberto, sem oferecer-se, ser sensível sem chocar-se, ser afectuoso sem ser permissivo, pensar por dois sem deixar de ser um, obedecer a protocolos sem ter medo de pisar em ovos, desejar sem possuir, demonstrar sentimentos sem ostentá-los, ser livre para tocar e ser tocado, ter coragem suficiente para dizer um sim e para ouvir um não.

O amor passional e compulsivo, aquele que exige correspondência, que compara, mede e pesa demonstrações de afecto, que especula sobre intensidade e qualidade de sentimentos, que raciona e condiciona expressões de ternura, inviabiliza, cedo ou tarde, qualquer relacionamento.

O encanto da convivência é a mobilidade e a variedade com que o outro nos demonstra, a cada dia, sua aceitação à nossa própria mobilidade e variedade de reacções.

Quanto mais o outro nos surpreende com sua tolerância e compreensão, mais confiamos nele, e mais aspectos novos somos capazes de expor.

Relacionar-se é penetrar cada dia mais fundo na infinita manifestação divina que é essa pessoa que está diante de nós, e que desejamos conhecer.
Quando conhecemos alguém que nos atrai especialmente, iniciamos uma queda em câmara lenta na direcção desse ser. Circulamos ao redor dele como um satélite, sujeitamo-nos às leis universais de atracção e repulsão.

E como corpos celestes, a máxima intimidade que conseguiremos, a despeito de tudo o que puder ser feito no plano físico, será sempre energético, será sempre Luz.

Da telepatia à cópula, relacionar-se é trocar energia de forma selectiva e isso não se faz em vão.

Relacionar-se é dar ao amor incondicional o colorido das emoções e sentimentos de uma parcela individualizada da divindade em acção.

Se melhoramos a qualidade de nossos relacionamentos aceleramos a evolução nossa e da humanidade inteira.
Se formos capazes de amar verdadeiramente a um único ser, por ele amaremos a todo o Universo.

Porque somos todos um.

(Autora: Maria Guida)

24 agosto 2004

Sabedoria numa caixa de areia

No principio é a Pré, porque ao frequentar um Jardim de Infância uma criança prepara-se para conhecer e conviver com outras crianças.
No principio é a Pré, porque a Educação Pré-Escolar ajuda a criança a desenvolver actividades indispensáveis à formação pessoal e social.
No principio é a Pré, porque é num Jardim de Infância que a criança aprende a interagir com crianças da mesma idade e com crianças de idades diferentes, desenvolvendo actividades em grupo e capacidades criticas.
No principio é a Pré, para que, antes de aprender a ler e a escrever, cada criança possa desenvolver a capacidade de expressar ideias, sentimentos e emoções e sentir o gosto e o prazer de conversar, ouvir histórias e comunicar com os outros.
No principio é a Pré, para que todas as crianças comecem a expressar-se livremente, com criatividade e com imaginação, nas dimensões plástica, musical, dramática e corporal.



Num Jardim de Infância, aprende-se a chamar os outros pelo nome, a saudá-los, a trocar atitudes de ternura e de afecto, a lavar as mãos, a vestir-se e despir-se, a desapertar botões e cordões e a ir sozinho à casa de banho.
Num Jardim de Infância, criam-se amizades, aprende-se a sentir segurança no brincar com os outros e adquire-se a capacidade de falar sobre o que aflige e de ajudar o outro.
Num Jardim de Infância, brinca-se ao faz-de-conta, experimenta-se o movimento do corpo, ganha-se confiança na capacidade física própria e até se aprende a reconhecer sons.
Num Jardim de Infância, cada criança começa a sentir o prazer em manipular materiais diversos, desde lápis de cor, tintas, barros, plasticinas, numa aprendizagem pelo crescente domínio de técnicas de expressão.
Num Jardim de Infância, adquire-se noções de orientação, representação no espaço, quantidade e tempo, e aprende-se a utilizar canções, danças, jogos e dramatizações como veículos de expressão.
Num Jardim de Infância, aprende-se a capacidade de tomar decisões e criam-se hábitos de higiene importantes para uma vida saudável.
Num Jardim de Infância, desenvolve-se o raciocínio lógico matemático, a capacidade de analisar, de comparar, de ordenar e de classificar factos e objectos e a faculdade de organizar mentalmente impressões.
Num Jardim de Infância, observa-se o Mundo das plantas, dos animais e da natureza em geral e educa-se a criança no respeito por tudo o que tem vida, cresce, mexe e exprime.

Muito provavelmente em nome de tudo isto, alguém, um poeta (R. Fulghum), disse um dia que tudo o que precisava de saber tinha aprendido no Jardim de Infância. Mais do que na própria Universidade. “A sabedoria, afinal, não estava no topo de uma montanha chamada Universidade, mas sim na caixa de areia da minha escola”.

Diga, quem tiver coragem para tal, que no Jardim de Infância nada se aprende, que as crianças apenas estão lá por necessidade dos pais.
Digam, quem tiver coragem para tal, isso às crianças que por lá passam, felizes, traquinas e sorridentes e acima de tudo muito orgulhosas da sua “escola” e do que lá aprendem e vivem.
Tudo o que aqui se escreveu é a verdade, a realidade da vida quotidiana do Jardim de Infância…diz-vos isto quem trabalha à 22 anos no Jardim de Infância, quem ri e ainda acredita nos sonhos, que aprende com as crianças a não deixar morrer a criança que um dia já foi, quem dedica a sua vida a estas crianças, em faze-las felizes.
Na véspera da abertura de mais um ano escolar, este é o recado que vos quero deixar a todos, Pais e Encarregados de Educação, vivam e sintam a experiência única de ter um filho(a) no Jardim de Infância, a magia, a ternura, os sonhos…acreditem que vale a pena, é uma época impar e que só se vive uma vez.
Visitem a “escola” dos vossos filhos, participem nas actividades promovidas por ela, sejam agentes activos e participativos na educação dos vossos filhos, valorizem as suas aprendizagens…vale a pena.
E acreditem nos sonhos, nos sorrisos, na ternura e na experiência incrível que é a vivência do Jardim de Infância, pelos vossos filhos tudo, mas tudo vale a pena.


angelis

23 agosto 2004

Segunda Feira




Não desanimem...é só mais uma semana que se inicia e para quem está de férias é óptima, para quem está a trabalhar...paciência...a vida é mesmo assim, mas com toda a certeza temos todos motivos para sorrir, para viver, para nos levantarmos de manhã com alegria e boa disposição.
É apenas mais uma segunda feira, como tantas outras segundas feiras das nossas vidas e outras virão, alegres, mal dispostas, sorridentes. O dia é o que nos quisermos, o que a nossa disposição mandar.
Por isso...sorriam, vivam e sintam-se felizes por viverem mais um dia maravilhoso de vossas vidas.
E se quiserem, se procurarem, encontram motivos para manter esse sorriso sempre a brilhar e iluminar os vossos corações.

angelis

21 agosto 2004

Ary dos Santos

José Carlos Ary dos Santos, nasceu em Lisboa em 1937.
Aos quatorze anos, a sua família publicou-lhe alguns poemas, considerados maus pelo poeta.
No entanto, Ary dos Santos revelaria verdadeiramente as suas qualidades poéticas em 1954, com dezasseis anos. É nessa altura que vê os seus poemas serem seleccionados para a Antologia do Prémio Almeida Garrett.
Em 1963 dar-se -ia a sua estreia efectiva com a publicação do livro de poemas "A Liturgia do Sangue". Em 1969, ano que o próprio Ary dos Santos considerava ter marcado decisivamente a sua vida, iniciou-se nas actividades políticas, integrando a campanha da CDE e filiando-se mais tarde, no Partido Comunista Português, participando de forma activa nas sessões de poesia do então intitulado "Canto Livre Perseguido". Foi principalmente através da sua poesia que contribuiu para a política nacional, numa altura em que a livre expressão havia sido anulada pela ditadura salazarista e em que urgia gritar pela liberdade, embora esse grito fosse, na maior parte das vezes, calado pelo regime.
Entretanto, concorreu, sob pseudónimo, ao Festival da Canção da RTP com os poemas "Desfolhada" e "Tourada", obtendo os primeiros prémios. É aliás através deste campo - da música - que o poeta melhor se tornaria conhecido entre o grande público. O poema "Desfolhada", cantado por Simone de Oliveira, com música de Nuno Nazareth Fernandes, ganhou em 1969, o primeiro lugar do Concurso da Canção RTP. Também em 1972, o primeiro lugar pertenceu a Ary dos Santos e Nuno Nazareth Fernandes com "Menina", interpretado por Tonicha. Um ano mais tarde a vitória seria de Ary dos Santos novamente, mas desta vez em parceria com Fernando Tordo, com "Tourada", interpretado por Fernando Tordo. Além destes êxitos, também o poema "Meu Amor, Meu Amor", escrito em 1968, com música de Alain Oulman e interpretação de Amália Rodrigues, obteve em 1971 o Grande Prémio da Canção Discográfica.
Autor de mais de seiscentos poemas para canções para os mais variados artistas entre os quais se contam Amália Rodrigues, Carlos do Carmo, Fernando Tordo, José Afonso, Paulo de Carvalho e Simone de Oliveira, entre muitos outros, Ary dos Santos fez no meio muitos amigos. Gravou, ele próprio, textos ou poemas de e com muitos outros autores e intérpretes e ainda um duplo álbum contendo "O Sermão de Santo António aos Peixes" do Padre António Vieira.
À data da sua morte tinha em preparação um livro de poemas intitulado "As Palavras das Cantigas", onde era seu propósito reunir os melhores poemas dos últimos quinze anos, e um outro intitulado "Estrada da Luz - Rua da Saudade", que pretendia fosse uma autobiografia romanceada.
Ary dos Santos faleceu em 1984.
Em 1984, logo após a sua morte, foi lançada a obra "VIII Sonetos de Ary dos Santos" de Manuel Gusmão no decorrer de uma sessão na Sociedade Portuguesa de Autores, da qual o autor era membro.
Ary dos Santos foi um dos mais talentosos poetas da sua geração, conhecido pela sua linguagem irreverente e ágil e que contribuiu para a viragem da música popular portuguesa. Como ele próprio dizia, a poesia era a maneira que ele tinha de falar com o povo porque ser poeta é escolher as palavras que o povo merece.

Bibliografia: 1953 - "Asas"; 1963 - "A Liturgia do Sangue"; 1964 - "Tempo da Lenda das Amendoeiras"; 1965 - "Adereços, Endereços"; 1968 - "Insofrimento In Sofrimento"; 1970 - "Fotosgrafias"; "Ary por Si Próprio"; 1973 -
"Resumo"; 1974 - "Poesia Política"; 1975 - "Llanto para Afonso Sastre y Todos"; "As Portas que Abril Abriu"; 1977 - "Bandeira Comunista"; 1979 -
"Ary por Ary"; "O Sangue das Palavras"; 1980 - "Ary 80"; 1983 - "Vinte Anos de Poesia"; 1984 - "As Palavras das Cantigas"; "Estrada da Luz - Rua da Saudade"

Teatro: "Azul Existe" (1964); "Os Macacões" (em colaboração com Augusto Sobral); "O Caso da Mãozinha Misteriosa" (em colaboração com Augusto Sobral).


“QUANDO UM HOMEM QUISER”

Tu que dormes a noite na calçada de relento
Numa cama de chuva com lençóis feitos de vento
Tu que tens o Natal da solidão, do sofrimento
És meu irmão amigo
És meu irmão
E tu que dormes só no pesadelo do ciúme
Numa cama de raiva com lençóis feitos de lume
E sofres o Natal da solidão sem um queixume
És meu irmão amigo
És meu irmão
Natal é em Dezembro
Mas em Maio pode ser
Natal é em Setembro
É quando um homem quiser
Natal é quando nasce uma vida a amanhecer
Natal é sempre o fruto que há no ventre da Mulher
Tu que inventas ternura e brinquedos para dar
Tu que inventas bonecas e comboios de luar
E mentes ao teu filho por não os poderes comprar
És meu irmão amigo
És meu irmão
E tu que vês na montra a tua fome que eu não sei
Fatias de tristeza em cada alegre bolo-rei
Pões um sabor amargo em cada doce que eu comprei
És meu irmão amigo
És meu irmão
Natal é em Dezembro
Mas em Maio pode ser
Natal é em Setembro
É quando um homem quiser
Natal é quando nasce uma vida a amanhecer
Natal é sempre o fruto que há no ventre da Mulher


"POETA CASTRADO, NÃO!"

Serei tudo o que disserem
por inveja ou negação:
Cabeçudo dromedário
fogueira de exibição
Teorema corolário
poema de mão em mão
Lãzudo publicitário
Malabarista cabrão.
Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado não!

Os que entendem como eu
as linhas com que me escrevo
reconhecem o que é meu
em tudo quanto lhes devo:
Ternura como já disse
sempre que faço um poema;
saudade que se partisse
me alagaria de pena;
e também uma alegria
uma coragem serena
em renegar a poesia
quando ela nos envenena.

Os que entendem como eu
a força que tem um verso
reconhecem o que é seu
quando lhes mostro o reverso:
Da fome já não se fala
– é tão vulgar que nos cansa –
mas que dizer de uma bala
num esqueleto de criança?

Do frio não reza a história
– a morte é branda e letal –
mas que dizer da memória
de uma bomba de napalm?

E o resto que pode ser
o poema dia a dia?
– Um bisturi a crescer
nas coxas de uma judia;
um filho que vai nascer
parido por asfixia?!
– Ah! não me venham dizer
que é fonética a poesia!

Serei tudo o que disserem
por temor ou negação:
Demagogo mau profeta
falso médico ladrão
prostituta proxeneta
espoleta televisão.
Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado não!

Artistas e poetas

José Sobral de Almada Negreiros, artista plástico e escritor, nasceu em 1893 em São Tomé e Príncipe, onde o pai era administrador do concelho da cidade. Estudou no colégio jesuíta de Campolide, para onde entrou em 1900, aos sete anos de idade, após a morte prematura da mãe, em 1896, e a partida definitiva do pai para Paris nesse mesmo ano. Aí realizou os jornais manuscritos "República", "Mundo" e "Pátria". Após o encerramento do colégio, frequentou entre 1910 e 1911, o liceu de Coimbra, de onde passou para a Escola Nacional de Belas-Artes, em Lisboa. Em 1915, integrado no grupo "Orpheu", centrou a sua polémica ideológica numa crítica cerrada a uma geração e a um país que se deixava representar por uma figura como Júlio Dantas. Mostrando-se convicto de que «Portugal há-de abrir os olhos um dia», lançou, em 1917, um "Ultimatum Futurista às Gerações Portuguesas do Século XX", precavendo-as contra a «decadência nacional», em que a «indiferença absorveu o patriotismo».
Entre 1919 e 1920 retomou os estudos de pintura em Paris. De regresso a Lisboa, adquiriu uma serenidade bem expressa na sua afirmação de que «entre mim e a vida não há mal entendidos». Mas, em 1927, de novo desgostoso com a falta de abertura do país às novas correntes ideológicas e culturais, foi para Madrid. Aí, como já antes o fizera em Lisboa, a par da sua actividade nas artes plásticas, colaborou com a imprensa. Com o agravamento da crise económica e social espanhola, após a proclamação da República, Almada regressou a Lisboa, em Abril de 1932. À consciência nacional que Paris lhe trouxera acrescentava agora uma «consciência ibérica culturalmente definida por valores líricos de uma certa lusitaneidade». Em 1934, casou com a pintora Sara Afonso.
Almada Negreiros, conhecido como «Mestre Almada», colaborou nas revistas de vanguarda "Orpheu" (de que foi co-fundador), "Contemporânea", "Athena", "Portugal Futurista" e "Sudoeste" (que dirigiu). Participou em exposições de arte, nomeadamente na I Exposição dos Humoristas Portugueses (1911), a primeira do modernismo nacional. Como artista plástico, são de realçar os seus murais na gare marítima de Lisboa, os trabalhos para a Igreja de Nossa Senhora de Fátima (mosaico e pintura) e o célebre retrato de Fernando Pessoa. Pintor do advento do cubismo, a sua actividade artística estendeu-se ainda à tapeçaria, à decoração e ao bailado.
Como escritor, publicou peças de teatro ("Antes de Começar", 1919; "Pierrot e Arlequim", 1924; e "Deseja-se Mulher", 1928); o romance "Nome de Guerra" (escrito em 1925, mas publicado apenas em 1938, e que é considerado um dos romances fundamentais do século XX português e o primeiro em que se manifesta já a arte modernista); os poemas "Meninos de Olhos de Gigante" (1921), "A Cena do Ódio" (escrito em 1915 durante a Revolução de Maio contra a ditadura de Pimenta de Castro e publicado apenas em 1923, que consiste numa descrição violenta do Portugal da época, em que se exprime uma dialéctica de amor-ódio que seria a tónica dominante das relações do artista com a pátria), "As Quatro Manhãs" (1935) e "Começar" (1969); e uma série de textos de crítica e polémica, dispersos pelas publicações em que colaborava. De entre estes, destacam-se o "Manifesto Anti-Dantas" (1915), verdadeiro libelo de reacção ao ambiente cultural estagnado e academizante da época, o "Manifesto" (1916), o "Ultimatum Futurista às Gerações Portuguesas" (1917) e "A Invenção do Dia Claro" (1921), conferência sob a forma de poema. A sua obra representa uma síntese, única na sua geração, das tendências modernistas e futuristas de então, não apenas por, como artista, ser multifacetado, mas também pela sua capacidade de fusão e conjugação, nas letras e na pintura, das vertentes plástica, gráfica e poética. Almada Negreiros faleceu em 1970.
Em 1970 e 1988, foram publicadas duas edições de "Obras Completas de Almada Negreiros", comemorando a última o centenário do autor.
Artista da novidade e da provocação, em demanda de «uma pátria portuguesa do século XX», atento à busca de uma unanimidade universal e profundamente marcado pela herança e o sentido da civilização europeia, foi uma das grandes figuras da cultura portuguesa do século XX. Artisticamente activo ao longo de toda a sua vida, o seu valor foi reconhecido por inúmeros prémios.




A FLOR

Je travaille tant que je peux et le mieux que je peux, toute la journée.
Je donne toute ma mesure, tous mes moyens.
Et après, si ce que j’ai fait n’est pas bon, je n’en suis plus responsable:
c’est que je ne peux vraiment pas faire mieux”
Henri Matisse

Pede-se a uma criança. Desenha uma flor! Dá-se-lhe papel e lápis. A criança vai sentar-se no outro canto da sala onde não há mais ninguém.
Passado algum tempo o papel está cheio de linhas. Umas numa direcção, outras noutras; umas mais carregadas, outras mais leves; umas mais fáceis, outras mais custosas. A criança quis tanta força em certas linhas que o papel quase não resistiu.
Outras eram tão delicadas que apenas o peso do lápis já era demais.
Depois a criança vem mostrar essas linhas às pessoas: Uma flor!
As pessoas não acham parecidas estas linhas com as de uma flor!
Contudo, a palavra flor andou por dentro da criança, da cabeça para o coração e do coração para a cabeça, à procura das linhas com que se faz uma flor, e a criança pôs no papel algumas dessas linhas, ou todas. Talvez as tivesse posto fora dos seus lugares, mas, são aquelas as linhas com que Deus faz uma flor!

Almada Negreiros

20 agosto 2004

Lendas...A Espada Mágica



Existe uma história muito, muito antiga, do tempo dos cavaleiros em brilhantes armaduras, sobre um jovem comum que estava com muito medo de testar sua habilidade com as armas, no torneio local.
Certo dia, seus amigos quiseram pregar-lhe uma peça e lhe deram de presente uma espada, dizendo que tinha um poder mágico muito antigo. O homem que a empunhasse jamais seria derrotado em combate.
Para surpresa deles, o jovem correu para o torneio e pôs em uso o presente, ganhando todos os combates. Ninguém jamais vira tanta velocidade e ousadia na espada.
A cada torneio, a notícia de sua mestria se espalhava, e não tardou a ser ovacionado como o primeiro cavaleiro do reino.
Por fim, achando que não faria mal nenhum, um dos seus amigos revelou a brincadeira, confessando que o instrumento não tinha nada de mágico, era só uma espada comum.
Imediatamente o jovem cavaleiro foi dominado pelo terror.
De pé na extremidade da área de combate, as pernas tremeram, a respiração ficou presa na garganta e os dedos perderam a força. Incapaz de continuar acreditando na espada, ele já não acreditava mais em si mesmo.
E nunca mais competiu.

Reflexão:
Será que precisamos de "mágica" em nossa vida ou temos consciência de nosso valor e de nosso potencial?

Lendas...A Deusa do Sal



Conta uma lenda que em uma ilha longínqua vivia uma solitária deusa de sal.
Ela era apaixonada pelo mar.
Passava dias, noites, horas na praia observando o balanço de suas ondas, sua beleza, seu mistério, sua magnitude.
Um desejo enorme começou a apossar-se do seu coração: experimentar toda aquela beleza.
Esse desejo ia aumentando até que um dia a deusa resolveu entrar no mar.
Logo que ela colocou os pés no mar, eles sumiram, derreteram-se. Encantada com o mar, ela seguiu em frente e logo após suas pernas e coxas não mais existiam.
A deusa, entretanto, seguiu adiante, sentindo partes do seu corpo derretendo-se, até ficar apenas com o rosto do lado de fora.
Uma estrela que observava tudo falou:
- Linda deusa, você vai desaparecer por completo. Daqui a pouco você não mais existirá.
A água do mar desfazia o rosto da deusa, mas ela respondeu fazendo um esforço:
- Continuarei existindo, porque agora eu sou o mar também.

Reflexão:
Para conhecer e experimentar é preciso permitir-se, ir em frente. Quando isto acontece, a mudança se dá, mudamos.
A deusa mudou, transformando-se em mar, fazendo parte dele, passou a ser o mar que ela tanto admirava da praia.
O mar por sua vez, também transformou-se, porque foi salgado pela deusa.
Ambos experimentaram a mudança: a deusa e o mar.

16 agosto 2004

Mais poesia

Esta é uma pequena homenagem à grande MULHER e escritora que foi Natália Correia. Leiam-na sem medos…vale a pena.

Natália de Oliveira Correia nasceu na ilha de São Miguel – Açores, em 1923. Veio ainda criança estudar para Lisboa, iniciando muito cedo a sua actividade literária. Importante figura da cultura portuguesa da segunda metade do século XX, notabilizou-se como poetisa, ensaísta, romancista, passando pelo teatro e investigação literária, Natália foi também uma figura destacada da luta contra o fascismo. Vários livros seus foram apreendidos pela censura, tendo sido condenada a três anos de prisão com pena suspensa, por abuso de liberdade de imprensa. Foi também deputada depois do 25 de Abril e também nesse papel foi uma figura marcante e inesquecível. Colaborou com frequência em diversas publicações portuguesas e estrangeiras. A sua obra está traduzida em várias línguas.

Obras poéticas: "Rio de Nuvens" (1947), "Poemas" (1955), "Dimensão Encontrada" (1957), "Passaporte" (1958), "Comunicação" (1959), "Cântico do País Imerso" (1961), "O Vinho e a Lira" (1966), "Mátria" (1968), "As Maçãs de Orestes" (1970), "Mosca Iluminada" (1972), "O Anjo do Ocidente à Entrada do Ferro" (1973), "Poemas a Rebate" (1975), "Epístola aos Iamitas" (1976), "O Dilúvio e a Pomba" (1979), "Sonetos Românticos" (1990), "O Armistício" (1985), "O Sol das Noites e o Luar nos Dias" (1993), "Memória da Sombra" (1994).

Ficção: "Anoiteceu no Bairro" (1946), "A Madona" (1968), "A Ilha de Circe" (1983).

Teatro: "O Progresso de Édipo" (1957), "O Homúnculo" (1965), "O Encoberto" (1969), "Erros meus, má fortuna, amor ardente" (1981), "A Pécora" (1983).

Ensaio: "Poesia de arte e realismo poético" (1958), "Uma estátua para Herodes" (1974).

Obras várias: "Descobri que era Europeia" (1951 - viagens), "Não Percas a Rosa" (1978 - diário), "A questão académica de 1907" (1962), "Antologia da Poesia Erótica e Satírica" (1966), "Cantares Galego-Portugueses" (1970), "Trovas de D. Dinis" (1970), "A Mulher" (1973), "O Surrealismo na Poesia Portuguesa" (1973), "Antologia da Poesia Portuguesa no Período Barroco" (1982), "A Ilha de São Nunca" (1982).

Faleceu em Lisboa em 1993.




ODE À PAZ

Pela verdade, pelo riso, pela luz, pela beleza,

Pelas aves que voam no olhar de uma criança,

Pela limpeza do vento, pelos actos de pureza,

Pela alegria, pelo vinho, pela música, pela dança,

pela branda melodia do rumor dos regatos,

Pelo fulgor do estio, pelo azul do claro dia,

Pelas flores que esmaltam os campos, pelo sossego, dos pastos,

Pela exactidão das rosas, pela Sabedoria,

Pelas pérolas que gotejam dos olhos dos amantes,

Pelos prodígios que são verdadeiros nos sonhos,

Pelo amor, pela liberdade, pelas coisas radiantes,

Pelos aromas maduros de suaves Outonos,

Pela futura manhã dos grandes transparentes,

Pelas entranhas maternas e fecundas da terra,

Pelas lágrimas das mães a quem nuvens sangrentas

Arrebatam os filhos para a torpeza da guerra,

Eu te conjuro ó paz, eu te invoco ó benigna,

Ó Santa, ó talismã contra a indústria feroz,

Com tuas mãos que abatem as bandeiras da ira,

Com o teu esconjuro da bomba e do algoz,

Abre as portas da História,

deixa passar a Vida!

14 agosto 2004

13 agosto 2004

Animais de estimação



Esta é a Blackie, uma cadela que teve a sorte de ser adoptada e de poder viver confortável, com carinho, atenção e cuidados, além de ter muito amor e também o dar sem reservas.

A história dela é igual à de tantos outros animais de estimação deste país. Abandonada…deixada à sua sorte pelos donos que um dia a mimaram, recolheram em casa e lhe deram todo o conforto e atenção.

Mas o que lhe aconteceu? Simplesmente foi abandonada à sua sorte, foi posta na rua. Porquê? Não faço a menor ideia. Saturaram-se de a aturar? Chegou a altura de férias e não a podiam levar? Era um estorvo? Estaria à espera de filhotes (pelo que me disse o veterinário, já teve ninhada de cães)?

Os animais têm direitos, não são brinquedos que se compram e quando nos cansamos deitamos fora, jogamos na rua, no lixo. Os animais que vivem dentro de casa, com os humanos (ditos racionais e inteligentes), não sabem defender-se na rua, não sabem procurar comida, não sabem escapar de um carro, não sabem onde mora o perigo, pois foram protegidos por nós e os habituamos a depender de nós para tudo, água, comida e até para fazerem as suas necessidades fisiológicas.

É justo abandoná-los quando nos cansamos deles? Quando nos prendem? Quando são um estorvo para as nossas férias? Eles não pediram para vir para nossa casa e fazer parte da nossa vida.

Esta é apenas a ponta do icebergue em relação aos animais domésticos e se falarmos nos restantes animais e seus habitats…teríamos aqui pano para conversa interminável.

A Blackie teve a sorte de ser recolhida novamente e de voltar ao conforto do lar. É uma cadela dócil, meiga, carente e traz consigo, no seu olhar as marcas do abandono e dos maus tratos. Ela é a minha companheira de brincadeiras, de mimos após a morte da minha anterior cadela.

É altura de pararmos…é altura de pensarmos…os animais merecem todo o nosso respeito, merecem ser tratados com dignidade. Quem tem um animal de estimação que o estime de verdade…não o abandone ou maltrate...ele é o seu melhor e mais fiel amigo.

E…adoptem um animal…há tantos à espera de um dono…há tantos com um olhar triste…apenas à espera de alguém que o ame…

E não se esqueçam…os animais têm direitos…não lhos tiremos…não temos esse direito.

angelis

12 agosto 2004

Espaço à poesia

Sei que estamos em tempo de férias, de lazer, de nada fazer, apenas relaxar corpo e mente.
Mas nunca é demais o saber…nunca é demais a leitura de um bom livro, de literatura com qualidade, independentemente do estilo ou gosto de cada um.
E porque estou de férias e com tempo para pesquisar…porque não abrir aqui e agora um pequeno espaço para dar a conhecer um pouco da nossa poesia e dos nossos poetas?
Claro que o gosto, a escolha é pessoal e intransferível…mas vale a pena correr o risco de espreitar, ler e quem sabe aprender a gostar deste género literário.
Começo por José Régio…como poderia começar por outro poeta qualquer, mas o seu “Cântico Negro” é simplesmente (na minha perspectiva) belíssimo.
Um pouco da biografia do poeta para entrada e depois este belíssimo poema.
Deliciem-se…alimentem a alma, que mesmo em férias precisa de algo que lhe dê forças e energias.

José Maria dos Reis Pereira Régio nasceu em Vila do Conde, em 1901.Publicou os seus primeiros versos nos jornais "O Democrático" e "A República".
Licenciou-se em Filologia Romântica com uma tese sobre "As Correntes e as Individualidades da Moderna Poesia Portuguesa", que não foi muito apreciada por valorizar Mário de Sá -Carneiro e Fernando Pessoa, quase desconhecidos na época. Esta tese, refundida, foi mais tarde publicada, em 1941, com o título "História da Moderna Poesia Portuguesa".
Com Branquinho da Fonseca e João Gaspar Simões fundou, em 1927, a revista “Presença”, que se publicou durante 13 anos e que iniciou o segundo Modernismo português de que José Régio foi o principal impulsionador e ideólogo. Para além da sua colaboração assídua nesta revista, deixou também textos dispersos por publicações como a “Seara Nova”, ”Ler”, o ”Comercio do Porto” e o “Diário de Notícias”.
Como escritor, José Régio dedicou-se ao romance, ao teatro, à poesia e ao
ensaio. Como ensaista, dedicou-se ao estudo de autores como Camões, Raul Brandão e Florbela Espanca.
.Obras de destaque: "Jogo da Cabra-Cega", 1934; "As Encruzilhadas de Deus”1936; "Jacob e o Anjo e Três Máscaras", 1940; "Fado", 1941; "O Príncipe com Orelhas de Burro", 1942; "Mas Deus é Grande", 1945; "Benilde e a Virgem -Mãe", 1947; "A Chaga do Lado", 1954; "Há Mais Mundos", 1962 (livro de contos pelo qual recebeu o Grande Prémio da Novelística da Sociedade Portuguesa de Escritores); "Cântico Suspenso", 1968; "Música Ligeira e "Colheita da Tarde" (livros de poesia publicados postumamente).
Recebeu em 1961, o prémio Diário de Notícias e, postumamente, em 1970, o Prémio Nacional de Poesia, pelo conjunto da sua obra poética.
Faleceu em 1969.




Cântico Negro

"Vem por aqui" - dizem-me alguns com olhos doces,
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho os com olhos lassos,
(Há nos meus olhos ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre a minha Mãe.

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde,
Porque me repetis: "Vem por aqui"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?
Corre nas vossas veias sangue velho dos avós.
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátrias, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios.
Eu tenho a minha Loucura!
Levanto-a como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou,
- Sei que não vou por aí!

Contrastes



Não sei bem porquê, mas desde que vim de férias, virei-me para a realidade que me rodeia…talvez por estar de férias, talvez por ter mais tempo livre para ver com olhos de ver o que se passa à minha volta, sem a pressa, sem a correria agitada dos dias de trabalho.
Seja qual for a razão ou o motivo…estou a gostar desta nova forma de postar…de mostrar os contrastes gritantes desta cidade, deste país.
Esta foto foi tirada da janela da minha sala.
Vivo num local sossegado e tranquilo, numa das freguesias da Maia, e apesar de passar à porta a estrada principal, como vivo nas traseiras do prédio (posso viver num centro urbano, mas mesmo assim ter sossego e tranquilidade e algo muito importante…SOL…tanto de Verão como de Inverno…o astro – rei visita a minha casa), posso observar este, entre outros contrastes da cidade.
Vivo num prédio urbano…mas nas traseiras do mesmo ainda se vive como a foto documenta.
Vivo na área metropolitana do Porto, o metro de superfície já chega às terras maiatas, mas o saneamento básico chegou à pouco tempo também…quase ao mesmo tempo que o metro, e por pouco ele chegava 1ª que a qualidade de vida indispensável aos seus habitantes.
Descontente? Nem pensar…apenas constato a realidade que me rodeia e comento-a…nada mais que isso…tão simples quanto isso.
Deverei não ver o que me rodeia? Deverei silenciar o que não gosto?
Há que sermos interventivos conscientes na vida social.
Há que saber ser actuante, ser munícipe activo e consciente dos seus direitos e obrigações, questionar o município, mas também fazer a sua parte, tal como separar lixos, não sujar e poluir o que é bem comum.
Há que ter bom senso.
Este é um dos muitos contrastes desta cidade.
Voltarei com novos contrastes…afinal estou de férias e com tempo para procurar os contrastes que fazem cada terra ser única e igual a si própria.
É apenas um contraste que observo das janelas de minha casa.

angelis

11 agosto 2004

Cidade adoptiva


Não ficaria bem com a minha consciência, se também aqui não referenciasse a cidade que eu adoptei, ou que me adoptou (depende do ponto de vista) há cerca de 17 anos…a Maia.

Concelho em pleno crescimento económico, populacional e com pontos de interesse para visitar. É uma cidade tranquila, onde ainda se tem qualidade de vida. Pertencendo à área metropolitana do Porto, mas ainda sem os conflitos e stress que acompanham a vida da cidade.

O texto que aqui posto, foi retirado do site da Câmara Municipal. Vale a pena a visita…e vale a pena aqui viver.

O Município da Maia é o natural e inequívoco herdeiro da antiquíssima Terra da Maia, que se estendia, nos meados do século XIII, desde a cidade do Porto, outrora limitada a breve espaço, até à margem esquerda do rio Ave. Área de grande significado político, social e militar adentro do Portugal proto-histórico, a Terra da Maia foi berço dos Mendes da Maia, poderosos caudilhos regionais «portugalenses», que, juntamente com o primeiro Rei, devem ser considerados como co - fundadores duma nacionalidade politicamente autónoma no Ocidente da Ibéria: Portugal.

Os Mendes da Maia constituíam uma família radicada na Região desde a Segunda metade do século X. Aboazar Lovesendes é o seu antepassado mais remotamente conhecido. Gonçalo Trastemires, seu neto, que conquistou Montemor aos Mouros em 1034, viria a ser morto em Avioso, o montículo que se implanta no actual Castelo da Maia, em 1038, provavelmente no contexto das questões dinásticas internas da monarquia leonesa. Seu filho, Mendo Gonçalves, é tido como «Vir illustris et magne potentie in toto Portugal» e o filho deste, Soeiro Mendes «o Bom», é citado como «prepotens et nobilissimus omnium Portugalensium».

Soeiro Mendes desempenhou funções da mais alta importância. Governador das terras recentemente conquistadas a Sul de Coimbra, quiçá em nome do próprio imperador Afonso VI, viria ainda a ter um alto papel junto do Conde Henrique, assumindo talvez mesmo a sua representação no decurso da ausência do Conde na administração do Condado. Mendo Soares e Paio Soares foram dois dos filhos de Soeiro Mendes. Ambos foram personagens importantes na corte de D. Henrique. Paio Soares foi governador de Montemor e da Maia e alferes de D. Teresa, o que constituía o mais importante cargo militar do Condado.

Soeiro Mendes, Gonçalo Mendes e Paio Mendes serão três dos filhos de Mendo Soares cuja acção, mormente no que respeita ao segundo e terceiro, será decisiva na autonomia política de Portugal.

Em todo o caso os Mendes da Maia eram, pelos meados do primeiro quartel do séc. XII, os verdadeiros expoentes da aristocracia portucalense. E quando sentiram que, na corte de Dona Teresa, tomavam prevalência os aristocratas galegos, trazidos pela mão dos Travas, os Mendes da Maia começaram a urdir o "golpe de Estado" que levaria aos Campos de S. Mamede.

A intervenção dos irmãos Mendes revelar-se-ia decisiva na conjuntura que alçaria à chefia do condado o moço Infante Afonso.

Com efeito, é crível que, alguns anos após a morte do Conde Henrique, o filho dos condes portucalenses se mantivesse no convívio e na familiaridade dos Mendes da Maia. Desde 1118, Paio era arcebispo da Sé primacial bracarense, e como tal a primeira figura da Igreja portucalense. E tal facto constituía um passo importante no crescimento da conjura contra Dona Teresa.

Em 27 de Maio de 1128 o Arcebispo e o Infante lavram em Braga um importante documento. O Infante promete ao Arcebispo direitos sobre várias vilas e lugares, diversas isenções e alguns importantes privilégios. E acrescenta que tais concessões serão feitas, «logo que obtiver o governo de Portugal». E o documento a que nos atemos justifica ainda as liberalidades do Infante, ao dizer que elas se deviam à ajuda que ele receberia do Arcebispo. De modo lapidar Alberto Feio chama ao documento de «acta da fundação de Portugal».

Os acontecimentos precipitam-se. E em 24 de Junho terão o seu momento decisivo. As forças leais a Dona Teresa encontram-se com as forças do Infante e do Arcebispo nos Campos de S. Mamede. As forças do Infante, comandadas por Gonçalo Mendes, saem vencedoras da contenda.
Aquela era, na expressão plástica de Acácio Lino, «a primeira tarde portuguesa». é que Portugal para sempre autónomo começava então.

Os Mendes da Maia, Paio e Gonçalo sobretudo, assumiam assim, verdadeiramente, o papel de construtores da Pátria. Paio fora o estratega do "golpe de Estado" e Gonçalo fora o seu executor operacional.

Décadas depois, quando o primeiro Rei levava o seu esforço de conquista às terras transtaganas e os portugueses se internavam pelos confins da "província de Alcácer", Gonçalo Mendes, verdadeiro «adiantado» de Afonso Henriques, travava nos Campos de Beja o seu último combate. Era «a morte do Lidador».

È, assim, mais do que evidente a estreita ligação entre a Maia e o nascimento de Portugal. Uma família, sucedendo-se de pai a filho, territorializada, ganhou relevância crescente, a nível de toda a região portucalense, e teve interferências decisivas no destino político do Ocidente da Ibéria.

Esta família perdurou no domínio da Maia ao longo dos séculos imediatos, e a sua prevalência só viria a abater-se nos meados do século XV, quando, em Alfarrobeira, ela se perfilou ao lado do Regente Infante D. Pedro, colhendo desse modo a animosidade de D Afonso V.

Em 15 de Dezembro de 1519, D. Manuel concedeu foral ao Concelho da Maia. Por essa altura o concelho abarcava toda a orla marítima entre o Porto e o Ave, estendida desde o mar até uma linha de pequenas alturas, ainda assim destacadas das terras chãs afins, desfiada desde Rio Tinto, pelos limites orientais de Alfena, de Covelas e dos Bougados, nessa época, e até 1902, a sede do Concelho situava-se no Castêlo da Maia em edifício hoje destinado a outros fins. Desde 1986,o Castêlo da Maia foi elevado á categoria de Vila constituída pelas freguesias de Barca, Gemunde, Gondim Stª. Maria e S. Pedro de Avioso.

Em 1832, D. Pedro, primeiro Imperador do Brasil e Regente de Portugal em nome de D. Maria II, desembarcava na Maia, nos areais de Pampelido, na chamada praia dos Ladrões -referência alusiva às «razias» vikings de outrora – e marchava de seguida sobre Pedras Rubras.

A Maia era, assim, em todo o espaço metropolitano português, a terra onde, por vez primeira, se arvorava a bandeira liberal. E em todo o agitado período que decorreu de 1832 a 1834 a Maia foi um dos palcos mais salientes das encarniçadas lutas fratricidas que opunham absolutistas e liberais. Os avanços das tropas; os recuos das tropas; os quartéis-generais; os quartéis avançados. Tudo isso perpassou pela Maia ao longo desses dois anos que dilaceraram o Pais.

Em 1836, implementava-se a reforma administrativa planeada por Mouzinho da Silveira. E por força desta acção, concebida à maneira dos figurinos da França napoleónica, e ainda em função dos apetites de vários caudilhos das terras adjacentes, a Maia viu-se retalhada, e vários pedaços seus foram engrossar concelhos vizinhos.

Foi assim com o Porto; foi assim com Matosinhos; foi assim com Vila do Conde, que terá recebido a parte de leão nesta acção dilaceradora duma terra secularmente unida; foi assim com Santo Tirso, um município também engrossado com uma larga soma de freguesias; foi assim com Valongo; e mesmo com Gondomar.

Ao longo do século XIX, mais algumas freguesias viriam a colar-se ainda a Vila do Conde, sempre ao sabor de condicionalismos políticos, para os quais os interesses das populações e a história comummente vivida pouco importaram.

O Concelho da Maia é constituído por 17 freguesias, possui 120.111 habitantes, e ocupa uma área de 83,2 km2. Pertence ao Distrito do Porto e integra a sua Área Metropolitana. É sulcado por dois cursos de água de relativa importância – o Leça, no sentido nascente - poente, e o Almorode, no sentido norte-sul. O clima é ameno, temperado atlântico, onde as oscilações de temperatura se diluem na suavidade das estações. A Maia possui acessibilidades invejáveis. Com o seu Aeroporto Internacional de Pedras Rubras, o seu Aeródromo Municipal de Vilar de Luz, ligada ao Porto por várias vias rápidas, a Maia é, além disso, atravessada por duas Auto-Estradas (A3 e A4), por uma via rápida com características de Auto-Estrada (IC-24) e futuramente será ainda servida por 3 linhas do metro de superfície.

Nas últimas décadas, a Maia registou fortes acréscimos populacionais e elevados índices de desenvolvimento sustentado. Isso justifica que, em 1990, a Vila da Maia fosse elevada à categoria de cidade; Cidade de Distrito do Porto. Sede de Concelho.

Pertencem ao concelho da Maia as seguintes freguesias: Águas Santas, Avioso (Santa Maria), Avioso (S. Pedro), Barca, Folgosa, Gemunde, Gondim, Gueifães, Maia, Milheirós, Moreira, Nogueira, Pedrouços, S. Pedro Fins, Silva Escura, Vermoim, e Vila Nova do Telha.

angelis

A minha cidade



Esta é apenas uma pequena homenagem à minha terra natal, à minha cidade, ao meu berço, e na sequência do post anteiror sobre a interioridade. Homenagem merecida pelo esforço feito pelas gentes da terra em tirar a cidade da sua interioridade e dar-lhe uma nova vida. O texto foi retirado do site da Câmara Municipal.

Visitem esta bela região, deliciem-se com o seu vinho, a sua gastronomia, as suas paisagens encantadoras. Vale a pena visitar...

A história e o vinho legaram a Peso da Régua a sua condição natural de Capital da Região Demarcada do Douro. Os pergaminhos deste povo são os dos cultivadores, que há séculos desbravaram e fecundaram as terras, que ainda hoje cultivam, honrando a memória dos primeiros povoadores. A toponímia desta região ficou marcada pela importância vitícola que o mundialmente afamado Vinho do Porto lhe concedeu, cujas virtudes são realçadas pela glória e um punhado de lendas.

Alguns historiadores consideram que o concelho de Peso da Régua foi habitado durante as invasões romanas e bárbaras, concluindo que o nome deriva da existência de uma casa romana de campo, soterrada em lugar da cidade – Vila Regula. Outros, porém, defendem a hipótese de a origem entroncar em "récua", devido aos ajuntamentos de récuas ou cavalgaduras que passavam o rio Douro. Há ainda uma terceira teoria, de acordo com a qual, o nome deriva de "reguengo", designação atribuída às terras dos reis. Mas, não ficamos por aqui, dado que também se defende a hipótese de Régua ter origem no termo "regra", aludindo ao direito que podia ser herdado de ascendentes ou conferido a descendentes através de um foral. Os historiadores que defendem esta hipótese justificam-na com o facto de o Conde D. Henrique ter doado estas terras a D. Hugo, que por sua vez as doou a D. Egas Moniz. Seria, portanto, esta "regra" a dar origem à palavra Régua, mais tarde Régua.

Em relação à proveniência do nome Peso existem duas correntes de opinião: a primeira defende a hipótese de derivar do lugar onde as mercadorias eram pesadas e cobrados os impostos; a segunda explica a probabilidade de o nome ter evoluído a partir de um lugar onde os animais de transporte eram alimentados ou pensados, o "Penso".

A Régua é uma cidade moderna, que apenas conheceu a sua condição de concelho após a época pombalina, no ano de 1836. Toda a importância reconhecida se inicia por culpa e graça da criação, na Régua, da Companhia Geral das Vinhas do Alto Douro, pelo Marquês de Pombal em 1756. Tendo mandado delimitar as vinhas do Vale do Douro com marcos de granito - Marcos de Feitoria - determinando assim as áreas de produção dos melhores vinhos, Portugal criava no Douro a primeira Região Demarcada do Mundo. A partir daí, e por via do comércio e sua centralização local, a Régua passou a ser o centro do Douro, o local onde todos chegavam e de onde tudo partia.

No dia 3 de Fevereiro de 1837, Peso da Régua foi elevada a vila, tendo-lhe sido anexado o concelho de Godim, com as freguesias de S. José de Godim, S. Pedro de Loureiro, S. Miguel de Fontelas, Santa Comba de Mouramorta e Santa Marta de Sedielos. A 31 de Dezembro de 1859, foram-lhe adicionadas, pela extinção do concelho de Canelas, as freguesias de Poiares, Covelinhas, Vilarinho de Freires e Galafura. A 11 de Dezembro de 1933 foi criada a freguesia de Vinhós, desanexada da freguesia de Sedielos. Com esta desanexação, o concelho de Peso da Régua integrava onze freguesias: Peso da Régua, Godim, Poiares, Fontelas, Loureiro, Mouramorta, Sedielos, Vilarinho de Freires, Covelinhas, Galafura e Vinhós. Com a integração de Canelas, o concelho completava o número actual de freguesias.

Peso da Régua foi elevado à categoria de cidade a 14 de Agosto de 1985. Em 1988 foi reconhecida, pelo Office International de la Vigne ed du Vin, Cidade Internacional da Vinha e do Vinho. Peso da Régua é um concelho rural de primeira ordem. Pertence ao distrito de Vila Real e está situado na margem direita do rio Douro. Tem uma extensão de 94,72 Km2. Dista 25 km da sede do distrito e está a 110 km da foz do rio Douro, no Porto. A norte está limitado pelo concelho de Santa Marta de Penaguião, a este pelo concelho de Sabrosa, a sul pelo rio Douro e a oeste pelo concelho de Mesão Frio.

O clima é de características mediterrânicas (microclima), com variações climatéricas acentuadas. A cidade do Peso da Régua encontra-se a 125 m de altitude. O solo é constituído por xistos - argilosos e por algumas zonas graníticas. O concelho, de um modo geral, é muito acidentado. A partir do rio Douro encontra-se uma pequena faixa de poucos metros de largura, de terras planas, onde se situa a grande zona urbana da Régua. Este vale estende-se pela zona do Rodo até ao limite do concelho com Santa Marta de Penaguião. A partir destas faixas planas, o terreno sobe acentuadamente, estando todas as freguesias localizadas em plena encosta.

Peso da Régua está ligado à cidade do Porto por via rodoviária, ferroviária e fluvial. É um centro vital nas comunicações para Trás-os-Montes e para a Beira Alta, através das cidades de Lamego e Vila Real. Três pontes atravessam o Douro na Régua, uma ferroviária, datada de 1872, outra rodoviária, datada de 1932, e uma de recente construção, que serve de passagem no Douro, do eixo Chaves/Vila Real/Régua/Lamego, Viseu e Figueira da Foz, através do Itinerário Principal N.º 3.

Capital da Região Demarcada mais antiga do mundo, Peso da Régua não sendo uma cidade de grandes monumentos, é um paraíso histórico de inegável valor. Mergulhada num dos mais belos rios de Portugal, preenche a encosta e o vale onde montes cobertos de vinha e prenhes de história se combinam numa escadaria de gigantes. É aqui que se encontra a Casa do Douro, a delegação no Douro Superior do Instituto do Vinho do Porto, a Rota do Vinho do Porto, a Comissão Inter profissional da Região Demarcada do Douro e o Instituto de Navegabilidade do Douro.

Os vinhedos que dão origem ao Vinho do Porto situam-se nas encostas abruptas e grandiosas do rio Douro e dos seus afluentes. O terraceamento, indispensável à instalação da cultura da vinha, originou uma paisagem deslumbrante, de características ímpares, construídas e cultivadas graças à perseverança de Homens que durante gerações cavaram a rocha mãe. Aos sufocantes verões da região - quentes e secos - seguem-se Invernos agrestes. O carácter nobre e delicado do Vinho do Porto tem origem nos solos pobres e no clima adverso de tipo mediterrânico. É curioso que numa zona tão hostil nasça um dos vinhos mais apreciados do mundo inteiro. Este é o principal mistério do Vinho do Porto.

O ritmo da Régua é marcado pela religiosidade das suas tradições. Por isso, se a visita à Régua se fizer no mês de Agosto, sugere-se a participação na alegria colectiva que marca a celebração da festa em honra de Nossa Senhora do Socorro, nos dias 14, 15 e 16. A festa em honra de Nossa Senhora do Socorro é uma herança cultural antiga, momentos que põem à prova o carácter de um povo e de uma Nação. Na altura da Procissão do Triunfo, a cidade ganha vestes iluminadas e os crentes montam altares de rua. A vida quotidiana tem deixado intocado o carácter dos reguenses, ficando bem patente a sua devoção para com a Nossa Senhora do Socorro.

As raízes desta devoção mergulham no rio Douro quando neste navegavam os barcos rabelos, que eram baptizados com nomes de frases religiosas, em busca de protecção divina contra os vários perigos com que se confrontavam. Quando eram lançados à água prendiam à proa flores de papel e à popa um ramo de oliveira com azeitonas. Diziam eles que era para dar sorte. Debaixo da ponte de comando colocavam uma caixa de esmolas, as "Alminhas do Barco", para depositarem as promessas feitas em momentos de aflição. Quando a noite descia, os marinheiros, ancorados nas margens, rezavam o terço e suplicavam em coro: "Senhora do Socorro... vieste para a Régua para pores teus pés sobre as águas do Douro; Tua mão, agarrada à espadela, guiando o nosso rabelo". Este é um exemplo da fé do povo duriense.


angelis

10 agosto 2004

Modernidade versus interioridade ou esquecimento?




Estive recentemente de férias no interior, mais propriamente na Serra da Estrela, e apesar de ser uma região turística é também o retrato fiel da interioridade deste país.
Numa das minhas saídas, munida da máquina digital, deparei com algo raro de se ver ou de se encontrar (principalmente para alguém que vive num centro urbano), um casal de idosos arrastavam um burro que por sua vez puxava uma carroça.
Não hesitei, parei o carro, tirei-lhes uma foto e segui viagem, absorta com os meus pensamentos que resolvi colocar aqui.
Temos um português na Presidência da comissão europeia, mas vemos idosos vergados pelo peso dos anos e do árduo trabalho, a puxar animais velhos e tão cansados como eles, na labuta do campo.
Dizemo-nos modernos, acompanhamos as potências europeias, mas as reformas são miseráveis, levando estes idosos a trabalhar de sol a sol na lavoura.
Os estudantes estão cada vez mais analfabetos e os resultados dos exames nacionais do 12º ano são a clara prova disso.
Quem se aventura pelo interior do país, vê uma população idosa, desgastada e desiludida, que não vive…limita-se a sobreviver.
Mas somos “presidentes da comissão europeia”, mas alienamo-nos com o Euro 2004, e agora?
O que fazer ao país real? Às carências sociais, às carências a nível da educação, saúde, à taxa crescente de desemprego, ao aumento dos combustíveis?
O que dizer a estes idosos? Que esperança para a interioridade que tem que ser imaginativa e ser ela mesma a sair dessa interioridade?
Que futuro para os jovens?
Afinal onde está a modernidade?
Será que não se esqueceram do país real?
Será que não se lembram que o país não é só os centros urbanos?
O interior está desenraizado, velho, por isso me questiono: Modernidade versus interioridade ou esquecimento?
Alguém se esqueceu do país real…!!!


angelis

De volta...



Apesar de ainda me encontrar de férias, estou de volta a casa e à net. Estes dias fora foram o culminar de um ano desgastante de trabalho, estudos e compromissos. Para onde fui? Serra da Estrela, que é lindíssima nesta altura do ano. Vale a pena lá ir. Onde fiquei? No Hotel Urgeiriça, um hotel belíssimo, com um atendimento e serviços extraordinários e plenos de profissionalismo. Vale a pena lá ficar. O que visitei? Bom o tempo foi pouco para visitar toda a serra e tudo o que lá tem de património natural, cultural, entre outros pontos de interesse. Saliento a Quinta da Lagoa, onde se fabrica o genuíno e certificado queijo da serra, em Canas de Senhorim, em Seia vale a pena visitar o Museu do Pão e o Museu do Brinquedo tanto os adultos como as crianças, pois ambos têm actividades para as crianças e os adultos. Passem pela aldeia medieval em Silgueiros e deliciem-se com a gastronomia do Restaurante Póvoa Dão. E não se esqueçam de passar pela Casa de Santar e provar o delicioso vinho do Dão, além de que a casa tem uns jardins belíssimos e faz parte do nosso património cultural. Um saltinho à Casa da Ínsua em Penalva do Castelo. Vale a pena visitar. Levem a máquina fotográfica e a vontade de se embrenharem por este Portugal dentro que tanto tem de belo e histórico para nos oferecer. Sejam turistas cá dentro, vale a pena. Claro que também me fez companhia a leitura e destaco dois livros que adorei ler “Amor curiosidade prozac e dúvidas” de Lucía Etxebarría e “Inventar a solidão” de Paul Auster. Não podia faltar na minha bagagem o caderno para a minha escrita, a preguiça e o nada fazer, apenas esvaziar mente e descansar o corpo e deliciar-me com a região que escolhi para estas merecidas férias. Agora…agora estou de volta e prometo andar por aqui com novos posts.

Angelis
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