27 junho 2004

Quando...

Quando em teu coração desabrocha, cheia de vida, a flor perfumada do amor,
lembra-te que alguém a plantou certo dia, dentro de ti.

Quando o teu coração se ilumina do suave colorido do pôr-do-sol,
lembra-te que alguém amanheceu contigo.

Quando o fogo da paixão abrasa o teu coração,
consumindo todas as tuas fibras, na imolação do prazer, lembra-te que alguém acendeu esta chama.

Quando teu coração estiver bordado de sonhos dourados, tecidos com fios de luar,
lembra-te que alguém coloriu teu mundo interior.

Quando a noite te encontrar com o coração partido e angustiado pelas amarguras colhidas durante o dia,
lembra-te que alguém possui o lenitivo de que precisas.

Quando teu rosto não puder conter a torrente de lágrimas
que se afundam pelas dobras do travesseiro,
lembra-te que existe alguém te esperando de lenço na mão.

Quando a insónia te revolve desesperadamente na cama,
lembra-te que alguém pode semear sonhos de paz em tua mente.

Quando a solidão te oprimir e o teu grito não encontrar eco,
lembra-te que lá do outro lado alguém ama a tua companhia
e entende o teu clamor.

Quando os teus segredos não cabem mais dentro de ti,
ameaçando romper os diques de tua alma,
lembra-te que existe alguém disposto a recolhê-los e guardá-los
com o carinho e a dignidade que tu esperas.

Quando em teu coração mora o azul do céu, a calidez do sol,
o gorjeio dos pássaros, o perfume das flores,
a nostalgia do entardecer, o encanto das manhãs,
a serenidade dos lagos e o sorriso da ventura,
lembra-te que alguém tocou o teu coração
com a varinha milagrosa do amor.

Tu, que amas e vives no controvertido mundo do arco-íris e da escuridão, da calma e da agitação, da paz e da instabilidade,
saibas que existe mais alguém habitando o teu planeta!

Nas horas felizes, partilha com ele teus sorrisos;
nas horas de solidão, vai, levanta-te e o procura,
onde quer que ele esteja.
Ele não é senão parte de ti, assim como tu és parte dele.

Não olhes o relógio! Que importa as horas?
A vida é tão curta, não há tempo a perder.
Tu que amas, se tiveres a coragem e a singeleza de assim o fazer,
abra teus lábios e canta o milagre do amor,
porque só o amor aproxima as pessoas
e faz com que falem a mesma linguagem!

(Autor: Lauro Trevisan)

Navegar...



Navegando pelo mar dos meus sentimentos, desaguei numa praia deserta e árida, como árido estava o meu coração.
Caminhei buscando algo que preenchesse a minha alma vazia e cheia de tudo e nada...
No imenso areal encontrei amores desfeitos e vividos na pressa de um dia sem sentido...
Encontrei sonhos e ilusões desfeitos por caminhos percorridos na pressa de viver e não deixar nada para trás...
Sentei-me cansada e desiludida...
Chorei...
Gritei...
Mas só me rodeava o silêncio inquietante... o sussurrar do vento trazia-me o eco dos meus pensamentos mais íntimos...
Naquele imenso areal branco perdi-me de mim...
Perdi-me da vida...
Achei-me na solidão de um leito desfeito e vazio...
Achei-me na inquietante solidão de que me fiz algoz e vítima...
Olhei o imenso oceano da vida...questionei-me...rasguei-me...
Tomei o barco da vida, decidida a rumar a porto seguro...
Tenho navegado desde então entre tormentas e tempestades, acalmias aparentes e busco o porto de abrigo para o meu coração sofrido e triste...
Nada na vida se faz ao acaso...
Nada na vida se constrói do nada e sim das decisões passadas... dos erros cometidos em encarnações das quais não temos consciência plena...
Sofro por mim própria...pelo que fiz...pelo que deixei de fazer...
Navego, ás vezes sem rumo nem destino...
Navego pelo oceano da vida com consciência sofrida do que sou hoje, é reflexo do que fui no passado, presente ou distante...sou o que sou...talvez nem quisesse ser de outra forma...
Vivo...respiro...quero ser...quero amar...para além de mim na transcendência do meu destino...encontrar a minha alma gémea que vagueia algures pelo espaço infinito á minha procura...
Esta sou eu, quando deixa fluir o que sente...o que a magoa...o que a motiva ou faz chorar...esta é a alma do poeta que vive entre o sonho e a realidade...a sombra e a luz...o presente e o passado...
Confuso? Não...realista? talvez...
Encontro-me onde preciso estar para evoluir...
Estou onde preciso estar para aprender...
Sou o tudo ou nada...
O preto ou branco...
Quente ou frio...
Não tenho meio-termo...
Não sei viver sem ser nos extremos de mim mesma...
Estico-me até ao limite do que sou...
Desfaço-me a cada queda no abismo...
Mas levanto-me e sigo buscando novo caminho...
Sou um poema inacabado...
Uma estrofe perdida...
Sou um poema sem nome...
Serei sempre o que não fui...
Serei o que quiserem...
Mas não me chamem...
E se o fizerem será sem nome...
Porque sou o tudo ou nada...
Porque sou um poema inacabado...
Esta é a vida e a realidade das emoções guardadas...
Continuarei a navegar...
Até ao infinito de mim mesma...
Tudo ou nada...até ao fim...

Angelis

25 junho 2004

Da solidão completa



Os jornalistas já terminaram as entrevistas, os editores tomaram o trem de volta para Zurich, os amigos com quem jantei voltaram para suas casas; eu saio para caminhar por Genebra.
A noite está particularmente agradável, as ruas desertas, os bares e restaurantes cheios de vida, tudo parece absolutamente calmo, em ordem, bonito, e de repente... E de repente eu me dou conta que estou absolutamente só.
É evidente que já estive sozinho muitas vezes este ano.
É evidente que em algum lugar, a duas horas de voo, minha mulher me espera.
É evidente que depois de um dia agitado como o de hoje, nada melhor que caminhar pelas ruelas e becos da cidade antiga, sem ter que conversar nada com ninguém, apenas contemplando a beleza ao meu redor.
Só que esta noite, por alguma razão que desconheço, este sentimento de solidão é absolutamente opressor, angustiante – não tenho com quem dividir a cidade, o passeio, os comentários que gostaria de fazer.
Claro, tenho um celular no bolso e um número razoável de amigos aqui, mas acho que já é muito tarde para telefonar para quem quer que seja.
Considero a possibilidade de entrar em um dos bares, pedir algo para beber – com quase toda certeza alguém me reconhecerá e me convidará para sentar em sua mesa.
Mas penso também que é importante ir até o fundo deste vazio, desta sensação que ninguém se importa com o fato de existirmos ou não, e por isso continuo caminhando. Vejo uma fonte e lembro-me que estive ali no ano passado, com uma pintora russa que acabara de ilustrar um texto que havia escrito para Amnistia Internacional; naquele dia quase não trocamos palavra, apenas escutamos os pingos da água e a música de um violino que vinha de longe.
Tanto eu como a pintora russa estávamos imersos em nossos pensamentos, mas ambos sabíamos que, embora distantes, não estávamos sozinhos.
Ando um pouco mais, em direcção à Catedral. Olho para outro lado da rua, uma janela está semiaberta e lá dentro posso ver uma família conversando; a sensação de solidão aumenta avassaladoramente por causa disso, o passeio nocturno agora é uma jornada noite a dentro, em busca de compreender o que é sentir-se absolutamente só.
Começo a imaginar quantos milhões de pessoas neste momento estão se sentindo absolutamente inúteis, miseráveis - por mais ricas, charmosas, encantadoras que sejam - porque também nesta noite estão sós, e ontem também, e possivelmente estarão sozinhas amanhã. Estudantes que não encontraram com quem sair esta noite, pessoas de idade diante da TV como se fosse a última salvação, homens de negócios em seus quartos de hotel, pensando se o que fazem tem algum sentido, já que tudo que estão sentindo agora é o desespero de estar só.
Lembro-me de um comentário feito durante o jantar: alguém que acabara de divorciar-se dizia "agora tenho toda a liberdade com que sempre sonhei."
É mentira.
Ninguém quer este tipo de liberdade, todos nós queremos um compromisso, uma pessoa para estar ao nosso lado vendo as belezas de Genebra, discutindo as visões da vida, ou até mesmo dividindo um sanduíche.
Melhor comer metade de um que come-lo inteiro, sem ter alguém com quem compartilhar nada, nem mesmo um pouco de comida.
Melhor ficar com fome do que ficar sozinho.
Porque quando você está sozinho - e eu falo da solidão que não escolhemos, mas que somos obrigados a aceitar - é como se não fizesse mais parte da raça humana.
Começo a caminhar para o lindo hotel do outro lado do rio, com seu quarto super confortável, seus empregados atenciosos, seu serviço de primeiríssima qualidade.
Daqui a pouco vou dormir e amanhã esta estranha sensação que - não sei por que razão - me atacou hoje, será apenas uma lembrança remota e estranha, porque não terei nenhum motivo para dizer: estou só.
No caminho de volta, cruzo com outras pessoas solitárias; elas tem dois tipos de olhares: arrogantes (porque querem fingir que escolheram a solidão nesta linda noite) ou tristes (porque entendem que não há nada pior na vida).
Penso em conversar com elas, mas sei que têm vergonha da própria solidão.
Talvez seja melhor que cheguem ao limite e então entendam que é preciso ousar, falar com estranhos, descobrir lugares para encontrar pessoas, evitar ir para casa e assistir TV ou ler um livro – porque se fizerem isso o sentido da vida estará perdido, a solidão terá se transformado em um vício, e a partir de então o longo caminho de volta em direcção ao ser humano já não será mais encontrado.

(Paulo Coelho)

O dia amargo da mulher



Ainda que o prazer me seja negado
Que na África meu clítoris seja cortado
a sangue frio
para extirpar definitivamente
o mal que trago em mim.
Que em outros orientes me cubram de negro
e me concedam apenas o vão que deixa
o mínimo ar da vida entrar.

Ainda que meu corpo pecador
seja molestado desde a puberdade.
Que no norte do Brasil eu seja leiloada
para o prazer dos coronéis.
Que meu corpo seja exibido
como suculento presunto.
Que eu faça sexo pelos cantos
para poder comer.

Que a baba do desejo dos homens
escorra do canto de suas bocas
para meus seios.
Que o passeio no meu corpo
seja o turismo do estrangeiro
que vem para o Brasil.

Ainda que meu canto de tristeza
não seja ouvido.
Que meu homossexualismo
seja pecaminoso e perseguido.
Que a canção do meu amor
tenha que ser sussurrada para minha amada.
Que eu seja surrada até a morte por amá-la.

Ainda que meu corpo não seja meu.
Que me mandem ter filhos
que não quero ter.
Que me neguem o aborto
e me mantenham a bordo
dessa nau de loucos.

Ainda que concedam
o status de consumidora.
Que me paguem menos que aos homens.
Que eu dê forças ao marido explorado quando ele volta ao lar.
Que meu marido mui generosamente me transmita a Aids.

Ainda que minha revolta seja loucura.
Que minha loucura seja feitiçaria.
Que a fogueira esteja sempre pronta
para curar minha tensão pré-menstrual.

Ainda que minha cordialidade
seja tomada por submissão.
Que meus direitos
sejam tidos como atrevimento.
Que eu seja a mais negra.
Que eu seja a mais pobre.

Ainda assim eu resisto. Eu sorrio.
E meu sorriso
é o mais forte e radiante.

(Eugênia Corazon)

Criança...



Nasceste, criança, botão de rosa,
Num jardim de esperança.
Olhaste o mundo
E sorriste.
Estendeste a tua mão pequena,
E acariciaste a minha face molhada.
Olhei-te e ri.
Ri como não o fazia há muito.
Era feliz!
E tu, criança, continuavas a sorrir!
Deste os teus primeiros passos,
Para subir os degraus da infância.
E ...
Quiseste brincar,
Mas não te deixaram.
Quiseste comunicar,
Mas selaram-te os lábios.
Quiseste sonhar,
Mas vedaram-te o caminho da fantasia.
Agora ...
Criança que me olhas a chorar
Criança que me estendes a tua mão gelada
Criança que refugias o teu corpo frágil nos meus braços
Quem apagou o teu sorriso?
Quem roubou o teu Natal?
Quem te abandonou nas vielas escuras da miséria?
Quem maltratou o teu coração?
É este duro passeio a tua cama
É este naco de pão o teu comer
De onde vieste?
Para onde vais?
Quem te pôs neste mundo infame?
Diz-me, criança, quem te matou?
Quando tu sorrias,
Eu era feliz.
Agora que silenciaram o teu riso,
Eu choro.
Homens, deixai as crianças serem CRIANÇAS!


Angelis

20 junho 2004

Ailaife blog

Neste vasto oceano de blogs que invadem a internet, podemos encontrar de tudo e para todos os gostos... Felizmente, para muitos de nós, ainda há blogs com qualidade e que vale a pena visitar. É o caso do Ailaife Blog...um blog com qualidade e actualidade, escrito por alguém com uma alma sonhadora, transparente, mas também incisiva, consciente e um pouco revoltada...alguém que escreve entre duas margens, a pessoal e a social, sempre com um olhar critico e actual. Vale a pena dar uma espreitadela a Ailaife Blog E quem lá for, vai querer voltar, e voltar e ficar assíduo num blog com qualidade escrito por alguém muito especial... Parabéns meu querido e doce amigo...não só pela qualidade da tua escrita que reflecte a tua alma, mas também pela coragem de escrever sobre o que preocupa a sociedade actual. Continua com essa força e garra...eu sou fã do teu blog...

Angelis

19 junho 2004

Desafios...




Quando procuramos alcançar determinado objectivo, que é imposto ou proposto por outros tornamo-nos pessoas sem vontade própria, apenas tentando alcançar metas que os outros nos dão.
Para atingir o topo da minha carreira profissional tive que voltar aos bancos da escola, após 20 anos de carreira. Na altura em que me propus satisfazer o objectivo imposto pelo meu estatuto profissional, questionei-me se valeria a pena…questionei-me se seria justo e correcto exigirem-me algo que não me exigiram quando me formei…
Meu curso confere-me o grau de bacharel…algo exigido na época em que me formei, e que me permitiu exercer a minha profissão. Entretanto o curso passou (largos anos depois) a licenciatura…e todos aqueles que eram bacharéis ficaram para trás…como castigo pelo grau académico não podiam atingir o topo da carreira…justo? Injusto? Talvez…
Meti mãos à obra…e ao fim de tanto tempo…candidatei-me para fazer o dito grau de licenciada…como tinha experiência profissional, curriculum de 20 anos de serviço, muita formação profissional, fui seleccionada e lá fui eu estudar…
Levava expectativas, sonhos, esperanças de poder aprender algo que não tinha aprendido quando me formei…algo de novo em termos pedagógicos, novas metodologias, etc.
Deparei com um curso de 2 anos, com uma carga horária excessiva para pessoas com uma longa experiência profissional, pessoas que trabalhavam durante o dia e que no final do seu trabalho ainda se sujeitavam a estudar das 17h30m até às 22h30m, durante 4 dias por semana.
Deparei com disciplinas fora do contexto educativo proposto pelo curso, com professores que em nada dignificavam o seu estatuto e desrespeitavam quem, com muito sacrifício, ali estava, deixando família sozinha.
Poderão questionar-me e dizer: - Foi opção vossa…sabiam para o que iam!!!
Certo…mas deveria haver mais coerência e respeito pelas pessoas que procuram os estabelecimentos de ensino superior, com a esperança de aprenderem algo de novo, de se reciclarem profissionalmente, de se actualizarem, valorizando-se como profissionais e pessoas.
Foram 2 anos de intensa carga horária, de exigências muitas vezes descabidas, mas após esse tempo posso, e poderemos dizer todas as 30 profissionais que fizeram o curso comigo, que tivemos uma força fora de série, que com o fruto do nosso esforço conseguimos chegar ao fim do curso.
Penosa a caminhada deste tempo, mas (perdoem-me o auto elogio) sinto-me orgulhosa de mim mesma, de ter conseguido alcançar o objectivo, de ter conseguido conciliar profissão e estudos e ainda a minha vida pessoal.
Vai longa esta conversa…mas apesar de o mérito me pertencer por ter conseguido terminar a tarefa a que me propus…deixo aqui um singelo, mas sincero agradecimento a duas pessoas que muito me ajudaram e deram força…um querido e doce amigo, que me ouviu desabafos longos e irritantes, me deu força e coragem o Alberto e à minha querida amiga de profissão e curso a Filomena (obrigada amigos!).
A todos os profissionais que não desistem dos seus sonhos, que ainda têm coragem de enfrentar novos desafios, que conseguem voltar aos bancos de escola…força!!!


Angelis

15 junho 2004

Convencemo-nos...

Convencemo-nos que a vida será melhor depois... Depois de acabar os estudos, depois de arranjar trabalho, depois de casarmos, depois de termos um filho, depois de termos outro filho.


Então, sentimo-nos frustrados porque os nossos filhos ainda não são suficientemente crescidos e julgamos que seremos mais felizes quando crescerem e deixem de ser crianças, depois desesperamo-nos porque são adolescentes, insuportáveis.

Pensamos: «Seremos mais felizes quando esta fase passar!»

Então decidimos que a nossa vida estará completa quando o nosso companheiro ou companheira estiver realizado, quando tivermos um carro melhor, quando podermos ir de férias, quando conseguirmos uma promoção, quando nos reformarmos.

A verdade é que NÃO HÁ MELHOR MOMENTO PARA SER FELIZ DO QUE AGORA MESMO!

Se não for agora, então quando?

A vida está cheia de depois, de reptos. É melhor admiti-lo e decidir ser feliz agora, de todas as formas. Não há um depois, nem um caminho para a felicidade, a felicidade é o caminho e é AGORA!

Deixa de esperar até que acabes os estudos, até que te apaixones, até que encontres trabalho, até que te cases, até que tenhas filhos, até que eles saiam de casa, até que te divorcies, até que percas esses 10kg, até sexta-feira à noite ou Domingo de manhã, até à Primavera, o Verão, o Outono ou o Inverno, ou até que morras, para decidires então que não há melhor momento que justamente ESTE para seres feliz!

A felicidade é um trajecto, não um destino.

Trabalha como se precisasses de dinheiro, ama como se nunca te tivessem magoado e dança como se ninguém estivesse a ver!


(Desconheço o autor)

Ame...

Diz um Conto Chinês que um jovem foi visitar um sábio conselheiro e disse-lhe sobre as dúvidas que tinha a respeito de seus sentimentos por uma bela moça.
O sábio escutou-o, olhou-o nos olhos e disse-lhe apenas uma coisa:
- Ame-a. E logo se calou.
Disse o rapaz:
- Mas, ainda tenho dúvidas...
- Ame-a, disse-lhe novamente o sábio.
E, diante do desconcerto do jovem, depois de um breve silêncio, disse-lhe o seguinte:
- "Meu filho, amar é uma decisão, não um sentimento.

Amar é dedicação e entrega.
Amar é um verbo e o fruto dessa acção é o amor.
O amor é um exercício de jardinagem.
Arranque o que faz mal, prepare o terreno, semeie, seja paciente, regue e cuide.
Esteja preparado porque haverá pragas, secas ou excessos de chuvas mas nem por isso abandone o seu jardim!
Ame, ou seja, aceite, valorize, respeite, dê afecto, ternura, admire e compreenda.

Simplesmente: Ame!!!
A inteligência sem amor, te faz perverso.
A justiça sem amor, te faz implacável.
A diplomacia sem amor, te faz hipócrita.
O êxito sem amor, te faz arrogante.
A riqueza sem amor, te faz avarento.
A docilidade sem amor te faz servil.
A pobreza sem amor, te faz orgulhoso.
A beleza sem amor, te faz ridículo.
A autoridade sem amor, te faz tirano.
O trabalho sem amor, te faz escravo.
A simplicidade sem amor, te deprecia.
A lei sem amor, te escraviza.
A política sem amor, te deixa egoísta.
A vida sem amor não tem sentido...

10 junho 2004

Reflexões do guerreiro da luz

Paulo Coelho

Os defeitos e as qualidades

Um guerreiro da luz conhece seus defeitos. Mas conhece também suas qualidades.
Alguns de seus companheiros queixam-se o tempo todo: "os outros tem mais oportunidade que nós".
Talvez tenham razão; mas um guerreiro não se deixa paralisar por isto, e procura valorizar ao máximo as suas virtudes.
Sabe que o poder da gazela é a habilidade de suas pernas. O poder da gaivota é sua pontaria para atingir o peixe. Aprendeu que um tigre não tem medo da hiena, porque é consciente de sua força.
Um guerreiro procura saber com que pode contar. Sempre verifica seu equipamento, composto de três coisas: fé, esperança, e amor.
Se as três estão presentes, ele não hesita em seguir adiante.

Acreditar sem medo

O guerreiro da luz acredita. Assim como as crianças acreditam.
Porque crê em milagres, os milagres começam a acontecer. Porque tem certeza que seu pensamento pode mudar sua vida, sua vida começa a mudar. Porque está certo que irá encontrar o amor, este amor aparece.
De vez em quando, se decepciona. As vezes, se machuca.
E então escuta os comentários: "como é ingênuo!"
Mas o guerreiro sabe que vale o preço. Para cada derrota, tem duas conquistas a seu favor.
Todos os que acreditam sabem disso.

Nas horas difíceis e nas horas alegres

Um guerreiro não compartilha sua tenda com quem lhe quer fazer mal. E tampouco é visto em companhia daqueles que só desejam "consolar".
Evita quem só está ao seu lado em caso de derrota. Estes falsos amigos querem provar que a fraqueza compensa.
Sempre trazem más notícias. Sempre tentam destruir a confiança do guerreiro - sob o manto da "solidariedade".
Quando o vêem ferido, desmancham-se em lágrimas, mas - no fundo do coração - estão contentes porque o guerreiro perdeu uma batalha, sem entender que isto é parte do combate.
Os verdadeiros companheiros de um guerreiro estão ao seu lado em todos os momentos, nas horas difíceis e nas horas fáceis.

O inimigo oculto

Os amigos do guerreiro da luz perguntam de onde vem sua energia. Ele diz: "do inimigo oculto".
Os amigos perguntam quem é.
O guerreiro responde:"alguém que não podemos ferir".
Pode ser um menino que o derrotou numa briga na infância, a namorada que o deixou aos onze anos, o professor que o chamava de burro.
O inimigo oculto passa a ser um estímulo. Quando está cansado, o guerreiro lembra-se que ele ainda não viu sua coragem.
Não pensa em vingança, porque o inimigo oculto não faz mais parte de sua história. Pensa apenas em melhorar sua habilidade, para que seus feitos corram o mundo e cheguem aos ouvidos de quem o machucou no passado.
A dor de ontem transformou-se na força de hoje.

Do breviário de Cavalaria Medieval

Assim diz o Breviário da Cavalaria Medieval:
"A energia espiritual do Caminho utiliza a justiça e a paciência para preparar teu espírito.
"Este é o Caminho do Cavaleiro. Um caminho fácil e ao mesmo tempo difícil, porque obriga a deixar de lado as coisas inúteis, e as amizades relativas. Por isso, no começo, sente-se tanta hesitação em segui-lo.
" Eis o primeiro ensinamento da Cavalaria: tu irás apagar o que até então tinhas escrito no caderno de tua vida: inquietação, insegurança, mentira. E iras escrever, no lugar disto tudo, a palavra coragem. Começando a jornada com esta palavra, e seguindo com a fé em Deus, chegarás onde precisas".

A arte de despertar

O guerreiro da luz está agora despertando de seu sono.
Ele pensa: " não sei lidar com esta luz, que me faz crescer".
A luz, entretanto, não desaparece.
O guerreiro pensa: " serão necessárias mudanças que eu não tenho vontade de fazer".
A luz continua lá - porque a vontade é uma palavra cheia de truques.
Então os olhos e o coração do guerreiro começam a se acostumar com a luz.
Ela já não assusta; passa a aceitar sua Lenda, mesmo que isto signifique correr riscos.
O guerreiro esteve dormindo por muito tempo. É natural que vá despertando aos poucos.

01 junho 2004

Ver além...



Olho para o azul do céu e meu pensamento perde-se nessa imensidão azul apenas recortada pelas árvores frondosas que agitam os seus ramos ao sabor da brisa que sopra.
Nesse olhar perdido, parado, meu pensamento vagueia por lembranças, por recordações, por horas passadas.
Perco-me nas lembranças felizes da minha infância, onde traquina brincava, corria, ria e sonhava. Rapidamente sou trazida ao presente, ao presente que vivo diariamente com as crianças com quem trabalho. Olho seus rostos, alguns tristes, alguns marcados, alguns sorrisos malandros e a eterna alegria de ser criança.
O que mudou? Tento lembrar com mais exactidão a minha infância, mas perco-me nos corredores do tempo…tempo em que jogava à bola com os meus vizinhos, que brincava “às casinhas”, aos cowboys, aos policias e ladrões, tempo em que acreditava no sonho, na lua que me seguia, nos cães que falavam, e na velha boneca de trapos.
Ao que e com que brincam as crianças de hoje? Não sabem brincar…passam horas enfiadas nos infantários, passam horas enfiadas nas escolas e depois nas actividades extra curriculares, passam horas sozinhas em casa, em frente ao vídeo, ao computador, crescem sozinhas de valores, de afectos, de brincadeiras, de sonhos, crescem sem saberem que foram crianças.
De quem é a culpa? Dos pais? Da sociedade? Da escola?
É preciso ver mais além…é preciso parar e pensar para onde queremos levar estas crianças, como as queremos criar, como queremos que elas cresçam.
Dizem que a taxa de natalidade diminuiu e vai continuar a diminuir no nosso pais, somos um país de velhos, o interior está deserto e os grandes centros desenraizados de valores culturais, de valores morais e sociais.
As cidades crescem desordenadamente, sem espaços verdes, sem espaços seguros para as crianças poderem brincar e dar espaço ao sonho, à fantasia. Os pais absorvidos pelo trabalho, pela correria diária não têm tempo, as escolas não têm meios, não têm recursos e entramos num circulo vicioso de culpas, numa rotunda sem saída, andando às voltas, às voltas sem encontrar respostas ou soluções.
É preciso ver mais além…parar um pouco, pensar, reflectir…é preciso que as crianças sejam crianças no tempo certo, com espaço para o sonho, a brincadeira, os sorrisos e os afectos, e não só hoje que é Dia Mundial da Criança, mas todos os dias, pois estas crianças nascem, sonham, sorriem e muitas delas morrem sem saber que foram crianças.
É preciso sorrir, é preciso ver e ir mais além…

Angelis
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...