31 julho 2006

Lembras-te?

Estávamos sentados no sofá, e tu, de repente, viraste para mim e perguntas:
- Lembraste daquele dia em que não fui eu que esperei por ti porque à minha espera já tu estavas. Um sorriso e um abraço muito grande aconteceram ali mesmo à porta?
Doces lembranças vieram à minha memória. E respondi:
-Todos os dias, desde que nos conhecemos e abraçamos pela 1ª vez, eram dias de descoberta e a sensação era a mesma.
Naquele dia, tal como em dias anteriores, ou mais ainda, sentia-te de uma forma intensa, de tal maneira que sempre que pensava em ti ou tu em mim, ligávamos ou mandávamos uma sms.
Isto só queria dizer uma coisa…aquele final de dia tinha que ser diferente, especial, intenso, tal como o que sentimos ao longo do dia.
Pela 1ª vez, resolvi esperar por ti à porta, pois sabia exactamente a que horas, a que momento tu irias chegar…sentia-te cada vez mais perto à medida que te aproximavas de casa.
Antes de descer, deixei a lareira acesa, para ir criando um ambiente quente e acolhedor, como seria quente e acolhedor o abraço que daríamos antes de subirmos para casa.
Sorriste, e abraçaste-me, um abraço forte e terno, como eram as lembranças daquele dia distante. Há quantos anos estamos juntos? – Perguntei eu.
Voltaste a sorrir e dando-me um beijo, respondeste: - Desde sempre. O tempo ao teu lado é eterno, mas já lá vão muitos anos, mas é como se fosse ontem. Cada dia contigo é especial e único.
Aconchego-me em teus braços e abandono-me às lembranças, aos dias, ás noites, aos sorrisos, ás partilhas e cumplicidades de um amor que cresce a cada dia que passa, que se torna mais forte a cada ano.
Sussurras ao meu ouvido: - Amo-te, sou louco por ti, és a minha vida, sou teu e não te quero perder.
Uma felicidade imensa, invade meu coração, e olhando-te nos olhos, respondo: - Também te amo, és a minha vida, sou tua e não te quero perder.


angelis

28 julho 2006

21 julho 2006

Partida...

Partida para a viagem da vida
(foto de Filipe Oliveira)


Algures numa estação perdida da vida apanhei um comboio que me levou para parte incerta.
Nessa viagem parti sem nada levar na bagagem , além de sonhos desfeitos.
Queria chegar ao meu destino...
Mas qual é o meu destino?
Qual o destino de todas as almas ?
A viagem faz-se sem grandes sobressaltos...
Pela paisagem deslumbrante, recortada por montes imponentes vai passando minha vida.
Cada monte representa conquista realizada a pulso á custa de esforços sobre humanos.
Cada nuvem leva sonhos desfeitos, quimeras irrealizáveis na dureza da vida.
Cada árvore , cada flor, dá-me a certeza de trabalho realizado.
A viagem segue o seu curso, imparável , sem marcha atrás e sem hipótese de saltar fora antes de chegar ao seu destino.
Mas para onde vai este comboio repleto de almas angustiadas?
Na viagem da vida, tudo se constrói por esforço e mérito próprio.
Cada conquista pessoal é alegria para a alma que trabalha no seu aperfeiçoamento moral.
Conforme a viagem vai decorrendo, todos aqueles que viajam neste comboio, vão-se apercebendo que não viajam sós.
Começam a ver os outros passageiros, começam a falar...a sorrir uns para os outros, pois tomam consciência de que a viagem é longa e poderão aproveitar para se conhecerem.
Uns falam dos seus sonhos.
Outros dos projectos para o futuro.
Outros partilham os seus lanches.
Outros ainda ajudam-se mutuamente no consolo de tristezas e desilusões.
Aos poucos o comboio, até então tristonho e cinzento, vai-se transformando, vai-se pintando com as cores da alegria, da fraternidade, da entreajuda.
Que milagre ocorreu lá dentro?
Simplesmente os seus ocupantes se aperceberam que fazer a viagem da vida fechados no seu egoísmo, na sua dor, os faz demorar mais tempo a crescer.
Partilhar alegrias, dividir tristezas, multiplicar a amizade e a fraternidade dá cor e sabor á vida.
Olhando para fora, para a paisagem que percorrem, vêem a natureza em festa, sorrindo para eles, dando-lhes forças e coragem, dizendo-lhes que vale a pena o esforço de nos aproximarmos dos outros, de escutarmos seus corações , de darmos sem reservas...
Vale a pena amar...
Vale a pena partilhar...
Vale a pena viver...
E a viagem prossegue , imparável no seu destino...
Para onde?
Para a felicidade...
Para o crescimento ....
Para a perfeição...
Para o amor...

angelis (agosto/2000)

15 julho 2006

08 julho 2006

Conheço


(imagem daqui)

Conheço de cor
Os caminhos que me levam até ti
Conheço de cor
Todos os sinais que me levam até ti
Conheço de cor
O cheiro do teu perfume,
O calor da tua pele,
A intensidade do teu beijo.
Conheço de cor
Os contornos da tua alma,
As cores do teu desejo.
Conheço de cor
O que te faz rir e chorar,
O que atormenta teu coração,
O que aspira tua alma.
Conheço de cor
O sabor do teu amor,
E nele me perco,
E nele me encontro,
E nele vivo e respiro.
Conheço de cor
O teu ser, o teu corpo.

angelis

06 julho 2006

O Nada


(imagem de X. Maia)


Sentei-me no chão , apaguei a luz e rodeei-me dos nadas que preenchem , diariamente , a vida de cada um.
Saltitantes , à minha volta , os nadas estavam contentes por poderem conversar comigo.
Pressenti que seria uma longa e interessante conversa. Realmente ,é apaixonante tentarmos pesquisar o nada em toda a sua essência plena de uma carga emotiva e psicológica que tenta , dia após dia , arrasar o indivíduo. Talvez o nada seja o desconhecido , o perplexo , a fronteira entre o sonho e a realidade , o possível e o impossível , talvez seja a única cambiante existente , talvez seja aquilo que toda a gente deseja.
O nada é doce , implacável , irresistível e atrai ferozmente para o abismo. A inspiração solta-se. É horrível a sensação de abandono. A loucura apodera-se de tudo.
O nada é o tempo , o espaço , aquilo que não fomos , aquilo que sonhámos , o irreal , o inatingível , o caminho palpável , a quimera irrealizável. Ser tudo e nada...
Já Protágoras dizia :« O homem é a medida de todas as coisas» . Talvez tivesse razão e talvez não. O homem pode ser um dos nadas que povoam o nosso planeta.
Talvez o nada esteja no empirismo. Talvez o espírito « tábua rasa » de Locke que se opõe à teoria das ideias inatas de Descartes, afirmando que o nosso espírito é inicialmente uma tábua rasa ou papel branco , onde nenhuma ideia está escrita antes de ser impressioNADA pelos sentidos , seja o princípio do « nada ».
Mas , se passarmos por Platão que diz: « conhecer é recordar , embora nunca se atinja a recordação total dos objectos porque estes são imperfeitos ou simples sombras dos objectos reais » ,talvez aqui o «nada» seja realmente importante ou talvez eu não queira dizer nada com o que escrevi até aqui.
Mas quem sabe se encontraremos um nada hereditário no comportamento actual do homem enquanto ser humano pensante.
Quem me diz a mim que a frustração actual do homem não é resultante dum nada conflituoso ao nível duma motivação individual (instintos e hábitos) e duma motivação social , nem sempre concreta e aceitável segundo as regras vigentes e caducas de cada sociedade.
Talvez o nada seja o passo de cada dia , repetido a cada hora. A solidão de um olhar suspenso em cada fantasma que nos rodeia. O nada pode ser um viajante do tempo , um retardado da vida no seu caminho errante.
O nada pode estar numas mãos brancas e impávidas , trémulas , inquietas , que incrédulas limpam uma lágrima e estão vazias e cheias de nada, nada que se encontra à sua volta.
Talvez tudo isto não seja nada, uma simples ilusão óptica , duma esferográfica que risca o papel branco e imaculado.
Nada pode ser nada e nada pode ser tudo...depende de cada um preencher os pequenos nadas que compõem a sua vida.
E já António Gedeão dizia:
«Eles não sabem , nem sonham,
que o sonho comanda a vida;
que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança» .
Que o nada seja sonho , cor , fantasia. Tudo aquilo que se desejar , que o nada não seja só nada , sem nada mais para dizer.

angelis


01 julho 2006

O regresso


(foto de Zacarias Pereira Da Mata)


"Lá vem a Nau Catrineta
Que tem muito que contar.
Ouvi, agora, Senhores
Uma história de pasmar..."
A Mãe correu à varanda,
Bem longe de imaginar
Que o alarme desejado
Vinha dum cego a cantar:
"Passava mais de ano e dia
Que iam na volta do mar,
Já não tinham que comer,
Já não tinham que manjar..."
A Mãe abriu num soluço
O coração a sangrar,
Porque a sola era tão rija
Que a não podiam tragar...
"Deitam sortes à ventura
Qual se havia de matar".
(A Mãe tinha pão na arca
E não lho podia dar!)
"Logo foi cair a sorte..."
(Que sorte tão singular!).
O gageiro olhava, olhava,
Mas só via céu e mar...
"Alvíssaras, Capitão..."
E o vento a enrodilhar
A voz do homem da gávea
Na do ceguinho a cantar!
"A minha alma é só de Deus,
O corpo dou-o eu ao mar..."
A Mãe, que nada podia,
Já só podia rezar...
"Deu um estoiro o demónio,
Acalmaram vento e mar."
E quando o cego acabou
Estavam em terra a varar...

Miguel Torga, Poemas Ibéricos
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