01 julho 2006

O regresso


(foto de Zacarias Pereira Da Mata)


"Lá vem a Nau Catrineta
Que tem muito que contar.
Ouvi, agora, Senhores
Uma história de pasmar..."
A Mãe correu à varanda,
Bem longe de imaginar
Que o alarme desejado
Vinha dum cego a cantar:
"Passava mais de ano e dia
Que iam na volta do mar,
Já não tinham que comer,
Já não tinham que manjar..."
A Mãe abriu num soluço
O coração a sangrar,
Porque a sola era tão rija
Que a não podiam tragar...
"Deitam sortes à ventura
Qual se havia de matar".
(A Mãe tinha pão na arca
E não lho podia dar!)
"Logo foi cair a sorte..."
(Que sorte tão singular!).
O gageiro olhava, olhava,
Mas só via céu e mar...
"Alvíssaras, Capitão..."
E o vento a enrodilhar
A voz do homem da gávea
Na do ceguinho a cantar!
"A minha alma é só de Deus,
O corpo dou-o eu ao mar..."
A Mãe, que nada podia,
Já só podia rezar...
"Deu um estoiro o demónio,
Acalmaram vento e mar."
E quando o cego acabou
Estavam em terra a varar...

Miguel Torga, Poemas Ibéricos

4 comentários:

  1. Pouco conheço de Miguel Torga. Só 'Os bichos', também não se pode conhecer tudo. Mas este poema tenho idéia dele.
    fica bem.
    Beijos.
    Manuel

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  2. Gosto imenso de Miguel Torga - este poema mostra ligeiramente o que foi a personalidade dele - triste e bucólico.
    Beijinhos e uma boa semana.

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  3. Sabias que a primeira peça de teatro a que assisti, teria eu cerca de 9/10 anos, foi esta? A Nau Catrineta... Auto da Barca do Inferno... recordo, como se fora hoje ainda, os actores em plena actuação e vestidos com aquelas roupas esfarrapadas...
    Sabia lá eu, que era do Torga?! Naquele tempo apenas queria saber a história e essa vive ainda hoje no meu imaginário.

    Boa semana, querida amiga
    Bjinhos
    Luís

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  4. De regresso estou eu. Partirei novamente... mas só lá para Setembro :)))))))))))))

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