
Ainda que o prazer me seja negado
Que na África meu clítoris seja cortado
a sangue frio
para extirpar definitivamente
o mal que trago em mim.
Que em outros orientes me cubram de negro
e me concedam apenas o vão que deixa
o mínimo ar da vida entrar.
Ainda que meu corpo pecador
seja molestado desde a puberdade.
Que no norte do Brasil eu seja leiloada
para o prazer dos coronéis.
Que meu corpo seja exibido
como suculento presunto.
Que eu faça sexo pelos cantos
para poder comer.
Que a baba do desejo dos homens
escorra do canto de suas bocas
para meus seios.
Que o passeio no meu corpo
seja o turismo do estrangeiro
que vem para o Brasil.
Ainda que meu canto de tristeza
não seja ouvido.
Que meu homossexualismo
seja pecaminoso e perseguido.
Que a canção do meu amor
tenha que ser sussurrada para minha amada.
Que eu seja surrada até a morte por amá-la.
Ainda que meu corpo não seja meu.
Que me mandem ter filhos
que não quero ter.
Que me neguem o aborto
e me mantenham a bordo
dessa nau de loucos.
Ainda que concedam
o status de consumidora.
Que me paguem menos que aos homens.
Que eu dê forças ao marido explorado quando ele volta ao lar.
Que meu marido mui generosamente me transmita a Aids.
Ainda que minha revolta seja loucura.
Que minha loucura seja feitiçaria.
Que a fogueira esteja sempre pronta
para curar minha tensão pré-menstrual.
Ainda que minha cordialidade
seja tomada por submissão.
Que meus direitos
sejam tidos como atrevimento.
Que eu seja a mais negra.
Que eu seja a mais pobre.
Ainda assim eu resisto. Eu sorrio.
E meu sorriso
é o mais forte e radiante.
(Eugênia Corazon)
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