04 abril 2004

Indiferença



Percorrendo algumas das ruas da cidade, embora não encontrasse nada de particular que me despertasse especial atenção, notei, apesar disso, a pressa de cada um em chegar ao seu destino.
Cada pessoa levava no rosto os traços da sua personalidade e do seu dia a dia citadino.
Mas, de repente, indo distraída a observar os meus semelhantes, deparei com um pobre velho, sentado á soleira de uma porta, pobre farrapo humano, estendendo a mão á caridade.
Para meu pesar, reparei que essa mesma caridade lhe virava as costas, como se fosse um verme nojento. Só um pobre cão, a quem os inteligentes chamam irracional, se quedou ao pé do homem e lhe lambeu amigavelmente as mãos sujas e deformadas pelos longos anos de trabalho.
Tornei a olhar para o velho e reparei, que embora, aparentemente, não chorasse, chorava.
Em poucos segundos compreendi quão endurecida está a alma humana. Mas o mais revoltante é que as pessoas que pregam a caridade, essa não passa de simples palavra lançada ao vento, porque das palavras aos actos vai um grande abismo e as pessoas têm medo de o ultrapassar e ficam-se resignadas como se nada de útil e bom se pudesse fazer.
É o simples comodismo das sociedades modernas e das mentalidades ou demasiado atrasadas ou demasiado evoluidas.
Lá diz o ditado “ no meio é que está a virtude”, mas hoje, não há meios termos, ou se faz ou se não faz.
Mas, normalmente, opta-se por nada se fazer, esperando que as coisas aconteçam simplesmente, sentados comodamente nas nossas poltronas.
Talvez já não devesse existir a miséria e a pobreza, não ponho isso em questão, mas a verdade é que hoje, apesar de haver uma total renovação a todos os níveis da nossa sociedade, há ainda miséria e continuará a haver cada vez mais.
Ponho uma questão: se já não deveria existir pobreza, na opinião de muitos, e se ainda existe, que se deve fazer? Dar-lhe um pontapé? Virar-lhe as costas e passarmos por ela com ares de seres superiormente inteligentes?
Acho que não. Este, como tantos outros problemas não podem deixar-se passar de ânimo leve e as pessoas têm de começar a tomar consciência do seu dever e da posição e responsabilidade que cada um tem nesta sociedade em que todos nós estamos inseridos e a quem temos , infelizmente, de prestar contas dos nossos actos.

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